segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Pink Floyd - "Pigs (Three Different Ones)" (Live)

Pink Floyd: 40 anos depois de "Animals", os porcos triunfaram mesmo

O mais irado e niilista de todos os álbuns foi lançado há 40 anos. 



"Animals" foi a adaptação à música da visão distópica de George Orwell em "Animal Farm" ("O Triunfo dos Porcos", na sua spoiler tradução portuguesa). Foi também o álbum que fez implodir os Pink Floyd (como não?), mas não é disso que vos falo hoje, até porque esse assunto já está bem escapelizado aqui e aqui. Hoje falo-vos da carga política do álbum mais irado e niilista dos Pink Floyd.

Como todas as grandes obras de arte, "Animals" é tão relevante hoje como no dia em que foi desvendada. No caso em concreto, podemos até dizer que é mais relevante hoje do que há 40 anos.
Se é verdade que a profecia de Orwell estava lá desde 1945, ela parecia exageradamente dantesca para que alguém acreditasse que poderia ter fundamento para além da revolução pós-czar soviética. Ouvíamos "Animals" com a mesma candura que visionamos entre pipocas qualquer filme do "Matrix", demasiado longínquo e fantasioso para nos preocupar para além das duas horas em frente ao ecrã.

Ninguém diria que chegaríamos aqui. Neste reality show 24/7 que mais se assemelha a um episódio de Black Mirror, os factos passaram a ser debatíveis (veja-se a secretária de imprensa de Trump a falar em "factos alternativos"), a ciência misturou-se com a opinião (Trump já expurgou todas as menções do aquecimento global do site da presidência) e a fronteira entre a realidade e a fantasia tornou-se difusa.



Todos somos culpados. Amolecidos por esta overdose tecnológica, demos as nossas regalias como garantidas, desprezámos a História e esquecemo-nos que as acções têm consequências. Começámos por tomar Trump como uma anedota; depois achámos que ele iria moderar o seu discurso no fim das primárias; depois durante a campanha; depois chegado à Casa Branca. Nunca o fez. Ignorámos o perigo que batia à porta e sem que nos déssemos conta, ele está aí. 40 anos depois de "Animals", 72 após "Animal Farm", os porcos triunfaram mesmo.

O que é que isto nos interessa? Deste lado do Atlântico, a cinco mil quilómetros e um oceano de distância, podemos olhar para tudo isto como um grande reality-show que acompanhamos todos os dias ao jantar; podemos fazer como os americanos e ignorar o perigo que representa uma criança de 5 anos num corpo de adulto chegar à presidência da maior potência económica mundial, ao dispor do maior arsenal bélico do planeta. Isso, ou então perceber que quando a América espirra, a Europa constipa-se e que tudo leva a crer que o futuro próximo é imprevisível.

O que fazer? Em primeiro lugar, evitar que o efeito dominó comece a fazer efeito e proteger as democracias europeias do populismo que levou os EUA a este ponto. O mundo mudou muito e muito rapidamente e é hoje um lugar diferente daquele que conhecemos há 10 ou 20 anos, quando quer que nos deixámos dormir e não percebemos que a precariedade do trabalho e da educação poderia levar o povo a tomar decisões inenarráveis, como eleger um pateta para seu líder. É preciso fazer uma purga na classe política e injectá-la com mais gente qualificada e menos demagogos jotinhas que só lá estão porque não tiveram capacidade de ganhar a vida em mais lado nenhum.
Já não basta andarmos com activismos de Facebook para depois ir para a praia em dias de eleições. Aliás, se há uma lição que se pode tirar destas eleições americanas é que o voto conta e que é fundamental votar. Só assim se protege a democracia. É capaz de ser hora de acordar.

...ou, como diz o Roger, a resistência começa hoje:




P.S.: O blog já leva 7 anos e este é o primeiro post sobre política. É revelador dos tempos em que vivemos.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

George Michael - "You Have Been Loved"



Adeus, George — You have been loved
Tudo o que eu queria ter dito ao George Michael
George, o que foste fazer? A minha namorada ligou-me há uma hora com a notícia que te tinhas ido embora e desde então que me tranquei no quarto e não consigo parar de chorar. Só penso em tudo o que te queria ter dito mas nunca tive a oportunidade. Escrevo-te aqui para me despedir de ti e te contar tudo o que não pude; para falar na tua importância, em como tu eras amado e em como te preocupavas demasiado. Esta é a carta do que nunca te disse.

Estou em choque, devastado, no meu velho quarto da casa dos meus pais, a tentar processar que já cá não estás. Calhou receber a notícia aqui porque te foste embora no Natal, logo no Natal, época em que todo o mundo ouve a tua música. Aqui, neste quarto, a tua música sempre se ouviu todo o ano.
Foi dentro destas paredes que eu cresci ao som dos teus álbuns: foi aqui que dancei despreocupadamente com os Wham!, foi aqui que me revi nas tuas inseguranças — essas malditas inseguranças que te perseguiram e te levaram — e foi aqui que me senti protegido pela tua voz. Por me teres ajudado quando precisei, sempre te defendi acerrimamente. Fi-lo na escola, quando não havia nada mais uncool do que gostar de ti e fi-lo todos os dias até hoje, que ainda subsiste esse estigma idiota. Acredita, sempre fiz tudo o que pude para te defender.

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que podia ter feito mais. Queria ter tido a chance de te dizer que te amava, que meio mundo te amava e que todos te amávamos incondicionalmente porque eras o George Michael. Não era preciso preocupares-te em ser outra coisa qualquer, estava tudo bem em seres "apenas" o George Michael. Tinhas ganho esse direito. Eras teimoso, mas talvez as coisas pudessem ter sido diferentes se me ouvisses.

Conhecia-te bem.  Sabia toda a tua música de cor, mas também sabia dos teus traumas, dos teus fantasmas e dos teus vícios. Sabia que eras um homem complexo, cheio de vícios adultos, mas no fundo só um menino perdido e frágil. Sabia do teu medo de envelhecer. Quando me mandei para Madrid sozinho para te ver e tu sacaste um tema obscuro do teu amigo Elton — "Idol", uma das minhas canções preferidas de sempre —, eu percebi que estavas a cantar sobre ti e as tuas inseguranças. E pensei que aquilo podia ser sobre mim também. E desatei ali a chorar compulsivamente.

A minha vida foi cheia de ti. A primeira grande viagem que fiz foi quando peguei corajosamente no carro e fui de Lisboa a Coimbra para te ver. A primeira vez que viajei para fora do país sozinho foi quando apanhei um avião para Madrid para te ver. A minha namorada, só o é, por causa de ti; porque na noite em que nos conhecemos lhe disse que gostava de Wham! e ela me desafiou a nomear o meu tema preferido da banda. Quando lhe cantei o refrão do "The Edge Of Heaven", ganhei a miúda. Era esta a importância que tinhas na vida das pessoas. 

Agora que já cá não estás e que o mundo chora o teu desaparecimento, estou convicto que já estamos preparados para reconhecer o génio que foste e enfim apreciar a tua obra conforme tu nos aconselhaste: "ouvir sem preconceitos". O teu legado será imortal.

You have been loved, George. And forever you will be. The world is going to be a shittier, shittier place without you.

George Michael - "Wating (Reprise)"

"All those insecurities that have held me down for so long, I can't say I've found a cure for these, but at least I know them, so they're not so strong.
You look for your dreams in heaven, but what the hell are you supposed to do when they come true?"

George, o que foste fazer? A minha namorada ligou-me há uma hora com a notícia que te tinhas ido embora e desde então que me tranquei no quarto e não consigo parar de chorar. Só penso em tudo o que te queria ter dito mas nunca tive a oportunidade. Escrevo-te aqui para te contar tudo o que não pude; para falar na tua importância, em como eras amado e em como te preocupavas demasiado. Esta é a carta do que nunca te disse.

Estou em choque, devastado, no meu velho quarto da casa dos meus pais, a tentar processar que já cá não estás. Calhou receber a notícia aqui porque te foste embora no Natal, logo no Natal, época em que todo o mundo ouve a tua música. Aqui, neste quarto, a tua música sempre se ouviu todo o ano.
Foi dentro destas paredes que eu cresci ao som dos teus álbuns: foi aqui que dancei despreocupadamente com os Wham!, foi aqui que me revi nas tuas inseguranças — essas malditas inseguranças que te perseguiram e te levaram — e foi aqui que me senti protegido pela tua voz. Por me teres ajudado quando precisei, sempre te defendi acerrimamente. Fi-lo na escola, quando não havia nada mais uncool do que gostar de ti e fi-lo até agora, que ainda subsiste esse estigma idiota. Acredita, sempre fiz tudo o que pude para te defender.

Ainda assim, não consigo deixar de pensar que podia ter feito mais. Queria ter tido a chance de te dizer que te amava, que meio mundo te amava e que todos te amávamos incondicionalmente porque eras o George Michael. Não era preciso preocupares-te em ser outra coisa qualquer, estava tudo bem em seres "apenas" o George Michael. Tinhas ganho esse direito. Eras teimoso, mas talvez as coisas pudessem ter sido diferentes se me ouvisses.

Conhecia-te bem.  Sabia dos teus traumas, dos teus fantasmas e dos teus vícios. Sabia que eras um homem complexo, cheio de vícios adultos, mas no fundo só um menino perdido e frágil. Sabia do teu medo de envelhecer. Quando me mandei para Madrid sozinho só para te ver e tu sacaste de um tema obscuro do teu amigo Elton — "Idol", um dos meus preferidos dele —, eu percebi que estavas a cantar sobre ti e as tuas inseguranças. E pensei que aquilo podia ser sobre mim também. E desatei ali a chorar compulsivamente.

A minha vida foi cheia de ti. A primeira grande viagem que fiz foi quando peguei corajosamente no carro e fui de Lisboa a Coimbra para te ver. A primeira vez que viajei para fora do país sozinho foi quando apanhei um avião para Madrid para te ver. A minha namorada, só o é, por causa de ti; porque na noite em que nos conhecemos lhe disse que gostava de Wham! e ela me desafiou a nomear o meu tema preferido da banda. Quando lhe cantei o refrão do "The Edge Of Heaven", ganhei a miúda. Era esta a importância que tinhas na vida das pessoas. O teu legado é imortal.

Agora que já cá não estás e que o mundo chora o teu desaparecimento, estou convicto que já estamos preparado para reconhecer o génio que foste e enfim apreciar a tua obra conforme tu nos aconselhaste: "ouvir sem preconceitos". 

Love you, George. The world is going to be a shittier, shittier place without you.

Edit: post original publicado às 4 da manhã, poucas horas depois da morte do George. Revisto em cima.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

David Bowie - "Killing A Little Time"



A última das três faixas que faltavam ouvir das Blackstar Sessions está aqui. "Killing A Little Time" é a mais fascinante e mind-bending das três canções (reparem que poderia ter dito "perturbadora", mas este é dos casos que o anglicanismo cai muito melhor, right?) e como sempre acontece quando se fala de Bowie, principalmente na sua fase pós-milénio, é impossível de categorizar. Bowie atingiu um estado de tal aristocracia sónica desde a viragem do primeiro dígito do calendário, que parece controlar as ondas com uma batuta só dele. Para ser simplista, isto não se parece com nada que já ouvimos antes e no entanto, tem elementos de tudo um pouco.

Sabem quando abrimos várias janelas no Youtube e elas começam inadvertidamente a tocar todas ao mesmo tempo, criando um ruído indecifrável? Não raras vezes, "Killing A Little Time" parece-se exactamente com isso. Esqueçam os tempos do rock progressivo, em que se colavam sequencialmente vários temas com andamentos diferentes (Bowie fê-lo com mestria em "Station To Station") e assim se criava uma obra complexa. Não. Bowie inventou agora um novo método: a colagem simultânea. Há uma guitarra a tocar um riff de metal à frente, temos um baterista lá atrás a fazer a cena dele, temos um Bowie a mandar versos fora dos lugares comuns, de vez em quando aparecem uns saxofones perdidos e ainda há um piano nervoso, a tocar ora à frente, ora atrás na mistura, como um balão que se esvazia caótico, enquanto embate nos quatro cantos da sala.
Parecem três músicas diferentes a tocar ao mesmo tempo, às vezes de forma confusa, às vezes num casamento inesperadamente perfeito. Deixa-nos a bater mal, mas no fim, resulta. Como diz a inviolável sabedoria popular, primeiro estranha-se e depois entranha-se.

Faz-me lembrar a primeira vez que ouvi "Blackstar", ainda antes da morte de Bowie e pensei "WTF"? Estava no carro, a ouvir a Radar no regresso a casa e enquanto fazia a descida de Monsanto na A5, telefona-me o meu chefe, provavelmente estacionado poucos metros à frente ou atrás no mesmo engarrafamento: "Nuno, estás a ouvir isto?! O Bowie passou-se de vez!". Eu só pude concordar. Fiquei largos minutos a processar o que tinha acabado de ouvir. É engraçado estar a contar este episódio ao detalhe e ao mesmo tempo me aperceber que "onde estava a primeira vez que ouvi Blackstar" é o novo "onde estava quando os aviões embateram nas torres gémeas" ou, para a geração mais velha, "onde estava no 25 de Abril". Mas divago.

As outras duas faixas chamam-se "No Plan" e "When I Met You" e, se ainda não tiveram oportunidade de ouvir, estão aqui e aqui, respectivamente. "No Plan" é um óbvio out-take de "Blackstar" e poderia figurar no álbum em qualquer parte, tanto em termos de lírica, como de sonoridade. "When I Met You" é bem mais interessante: é perigoso e cortante e por isso soa a algo saído de "Scary Monsters". Não é bem o mood de "Blackstar", mas é uma das melhores faixas das últimas sessões de gravação de Bowie. Uma coisa é certa: David Bowie desafiou os limites até ao fim. Só podemos imaginar até onde os poderia esticar ainda mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Phil Collins - "I Cannot Believe It's True"

" I think it must have slipped your mind, but I remember not so long ago I gave it all, it's gone and I gave it all to you"


Agora que está confirmado o regresso de Phil Collins aos espectáculos, esta crónica que escrevi em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca.
Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.

Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil, para mim é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali" durante a minha vida. É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou") e uma sombra do poço de vida que já foi.

Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha sobre ele. Primeiro quando o elevaram a superestrela depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fez.
Phil nunca conseguiu lidar com esta reviravolta mediática e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os da sua vida depois de Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando as coisas pioraram no fim dos anos 90 e início dos 00s, Phil isolou-se ainda mais - quis uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.

Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR: a mulher pediu-lhe o divórcio, levou-lhe os filhos, tirou-lhe o dinheiro e Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá e conversas com a linha do suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.

Eventualmente Phil começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014, a sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou) e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. E eis que pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar uma decisão errada.

Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris. Mas mais uma vez ignora que aquilo que realmente o protege e lhe faz bem é o chapéu-de-chuva dos Genesis.

O que Phil deveria ter feito era o seguinte: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções especificamente. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.

Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Whatever happens, I will always love you, Phil.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Queen - "You Take My Breath Away"

"Look into my eyes and you'll see I'm the only one"

A minha vida adulta numa música dos Queen

1. A melhor canção de amor alguma vez escrita

Penso que nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deve ser unânime e axiomaticamente aceite que a melhor canção de amor alguma vez escrita é "You Take My Breath Away" dos Queen. Quem não corrobora desta doutrina, ou nunca ouviu a canção (façam favor), ou anda com o coração parado e ainda não foi avisado.

Vem esta observação a propósito da chegada dos dias curtos, das primeiras chuvas e das temperaturas mais baixas, que eu recebo sempre de duas formas: com uma camisolinha de malha e com o álbum "A Day At The Races" em volume máximo à saída do trabalho, já de noite. A introdução do álbum anuncia a chegada de algo perigoso e sombrio, mas majestoso e irresistível. O que quer que isso signifique em concreto.

Para mim, significa a minha vida. O álbum "A Day At The Races" acompanhou as várias fases da minha vida adulta, servindo de pano de fundo para uma série de momentos-chave que anunciavam uma mudança. A própria chegada do álbum à minha vida foi uma obra do acaso e do absurdo ou, por que não, do destino.

2. Puberdade

Tinha 13 anos e vivia eu o auge da minha puberdade reprimida. Torrentes de transformações em mim e em todos os que me rodeavam, que me deixavam confuso, perdido e vetado ao abandono como a única pessoa sã que restava no mundo. Fui almoçar com o meu Pai à hamburgaria do Centro Comercial de Santiago, em Castelo Branco. Hoje, é (mais) um centro comercial decrépito, a apodrecer com uma epidemia de lojas fechadas, mas no início de 1999 borbulhava cheio de vida, cores e cheiros. Cheiros esses que vinham em grande parte da hamburgaria do "Chico Omelete", que servia uns hambúrgueres deliciosos, acompanhados de umas batatas fritas carregadas de sal e igualmente irresistíveis. Passaram-se 17 anos e - como é que é possível - ainda me consigo lembrar vividamente daquele cheiro que nunca mais cheirei. Mas divago. Voltemos à mesa onde me sentava com o meu Pai, nos bancos altos de metal.

Esta era a fase em que começava o meu conflito irresolúvel com o meu Pai. Já começava a ter opiniões (contrárias às dele), já me achava nietzschianamente independente e pior, já queria mandar. As nossa conversas acabavam invariavelmente em discussões feias e diferenças irreconciliáveis, menos quando falávamos sobre um assunto: música.

Na música, a nossa sintonia era (ainda) total. A viver a minha fase de auto-descoberta e descoberta do mundo, já sentia que o que tinha em casa não chegava. Precisava de mais. Acima de tudo, queria satisfazer a minha curiosidade e mergulhar a fundo na minha banda preferida. Queria saber tudo sobre os Queen, conhecer o que havia para lá dos "Greatest Hits" e do "Live At Wembley".
Os olhos do meu Pai arregalaram-se e naqueles bancos vivemos um raro momento de bingo paternal. Ali falou-me de histórias lendárias de cassetes dos Queen que haviam vencido centenas, milhares de quilómetros até às suas mãos nos anos 70 e que ele nunca mais vira ou ouvira. Ali enumerou-me nomes de álbuns, que eu fingi não conhecer para não lhe moderar a luz do palco. Preciosidades que eu tinha que ouvir e que também ele tinha curiosidade em voltar a ouvir.

À cabeça do tesouro, estava um álbum: "A Night At The Opera". Era ali que tínhamos que começar. E foi assim que enquanto o meu Pai tomava um café e fumava um cigarro no restaurante, me autorizou a ir à loja de discos do centro comercial - local sagrado das minhas peregrinações ao centro da cidade - encomendar o CD ao Sr. João. Quando fiz o pedido, o Sr. João não percebeu bem o meu inglês e pediu-me para escrever no seu caderninho, que trazia a Lisboa como cábula do que tinha que comprar naquela semana. Como já devem ter adivinhado, por obra do destino, do acaso, ou do absurdo, naquele caderno ficou escrito "A Day At The Races".
Juro que até hoje não sei como é que aquilo aconteceu. Saí da loja do Sr. João convencido que tinha encomendado o álbum preferido do meu Pai e afinal encomendei o meu álbum preferido. Só que eu ainda não sabia, porque nunca o tinha ouvido.

3. Adolescência

A partir desse dia, "A Day At The Races" acompanhou-me inexoravelmente em todas as transformações da minha vida, como quem anuncia uma nova fase. "You Take My Breath Away", em particular, serviu sempre como pano de fundo a momentos pivotais da minha sempre turbulenta relação com o sexo feminino.
Quando a ouvi pela primeira vez, o minimalismo asfixiante da música deixou-me perturbado. Nunca ouvira nada assim, tão simples (um homem, um piano e o silêncio) e tão poderoso ao mesmo tempo. Nos primeiros tempos, saltava a segunda faixa do CD, directamente para "Long Away". Até que me deixei conquistar por "You Take My Breath Away", to the point of obsession. Sonhava com o dia em que conhecesse uma miúda a quem pudesse cantar aquela letra romântico-obsessiva que falava de mim e do que eu queria para a minha vida.
Os anos passaram e esse dia nunca mais chegava. Olhava à minha volta e não via ninguém que pudesse merecer, muito menos perceber a magnitude da canção. Até que o dia chegou.

4. Adulto

Aos 16 anos calhou na minha turma uma miúda mais velha (repetente, portanto) que carregava uma escuridão enigmática e caminhava com uma majestosidade única na escola. Ela sim, podia perceber; parecia encaixar perfeitamente naquela canção. A miúda mais velha tornar-se-ia poucas semanas depois na minha primeira namorada (e deu o mote para a maioria das restantes).
Na vertigem da urgência, sem querer perder tempo nem deixar fugir a oportunidade, logo na primeira noite de namoro citei-lhe os versos de "You Take My Breath Away" na íntegra, enquanto estávamos sentados e agarrados nos bancos de jardim em frente ao liceu. Não sem que ela a meio me perguntasse se eu "ia mesmo cantar a música toda". Como se isso estivesse em questão. Nem que naquela hora passasse ali um tornado, ninguém arredava pé daquele banco sem que eu terminasse os versos do Freddie Mercury. Mas convenhamos, aquela pergunta já não augurava nada de bom. 
Durámos um mês.

Um ano mais tarde, noutro banco de jardim, em frente a outra escola, a mesma cena. Desta vez estava na Alameda, em frente ao Instituto Superior Técnico. Era o segundo dia de namoro (também com uma miúda mais velha, go figure) e sem me aperceber que estava a repetir a efeméride da há um ano em circunstâncias estranhamente similares, voltei a cantar "You Take My Breath Away" integralmente. Num trágico quatro em linha de coincidências, também ela me perguntou: "vais cantar tudo até ao fim?". Devia ter lido os sinais. 
Ainda assim, namorámos mais 5 anos. Nada mau.

Fast-forward 12 anos e dos bancos da Alameda, passamos para os bancos do meu carro. Desta feita não sou eu que canto, deixo as honras para o Freddie. Pela terceira vez na minha vida, partilho "You Take My Breath Away" com uma miúda e agora, pela primeira vez, ela não pergunta quando é que a música acaba. Qual banda sonora profética, volta a marcar o início de mais uma fase na minha vida. E feliz. 
Durou quase 2 anos.

Pode ser que à quarta seja de vez.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Bruce Springsteen (The Castiles) - "You Can't Judge a Book by the Cover"




Ainda agora comecei a ler a autobiografia do Bruce Springsteen e já estou de coração cheio. Bastaram meia dúzia de capítulos para perceber como funciona o livro do Boss: todo ele está divididinho em pequenos capítulos de 4/5 páginas que se lêem como canções, uma vez que à semelhança das canções de Bruce, cada um destes actos conta uma história.


Bruce escreve em prosa na mesma linguagem épico-mundana que já conhecemos da sua música (descrevendo lugares, personagens e acontecimentos mundanos de forma épica) pelo que, juntando à estrutura projectada em pequenas short-stories, faz com que este pareça um álbum novo de Bruce Springsteen - a sua antologia definitiva, onde pôde contar a história da sua vida sem as restrições da duração de um disco. Para um fanático do Bruce como eu, é mesmo de deixar o coração cheio. No fim de cada capítulo, só apetece abraçar o livro.

O fim-de-semana está aí e agora que o Verão se foi embora e a escuridão ganha terreno nos dias, não há programa melhor para passar o tempo, se não a ler o novo álbum de Bruce Springsteen. Bem, na verdade até há literalmente um álbum novo - o "Chapter And Verse". Mas este será o caso raro em Bruce, em que é preferível ler o livrete que ouvir a música.

Mais uma nota: se puderem, leiam a versão original. As palavras do Bruce só devem ser lidas nas suas próprias palavras, não há volta a dar. De outra forma, deixa de ser Bruce Springsteen. Agora escusem-me este post rápido, que vou voltar para o meu livro (comprado em half-price na WHSmith do aeroporto de Luton! Sabe tão bem uma borla!).