sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Peter Gabriel - "Signal To Noise"

"Receive and transmit"


Uma das temáticas que mais gosto de ouvir na música é a comunicação; ou o problema da falta dela. É disso que trata o meu álbum preferido de sempre e é disso que fala este "Signal To Noise", superlativo tema do álbum "Up", o mais recente de Peter Gabriel (ainda o é, apesar de ter sido lançado em 2002).


A comunicação é a base de todo o relacionamento interpessoal e deveria ser uma das aptidões a merecer maior atenção da nossa parte. Mas não é. Ao invés, é uma competência tratada de forma débil, negligente e selectiva. Tiramos MBAs, vamos a cursos de oratória para aprender a falar em público, desenvolvemos todo um leque de capacidades comunicativas de uso profissional e esquecemo-nos da puta da capacidade para comunicar com quem gostamos. Uma coisa tão simples, mas tão difícil.

É mais fácil dizer "vai-te foder", "não vales nada" e "és uma merda", do que "amo-te", "não quero que vás embora", "senti a tua falta" ou "isto sem ti não tem piada nenhuma". Não me refiro a dizê-lo por mensagem, Messenger, Facebook, ou qualquer uma da miríade de redes sociais que catalisam palavras nunca ditas ao vivo. Refiro-me a dizê-lo cara-a-cara, no meio de uma discussão que dura há horas, sem que ninguém se lembre como começou e cujo único propósito é a pífia vitória de "ter razão". Como se isso fosse uma grande merda. Nunca ninguém foi para o Marquês de Pombal por ter ganho uma discussão com a namorada. Não há vencedores num jogo que não acaba com a taça de um beijo.

Ainda pior que a má comunicação, é a falta dela. No jogo do silêncio não há taças, saem todos a perder.
Não há coragem para falar nos problemas. Preferimos viver em paz podre, com sorrisos plásticos, olhares vazios e conversas que ignoram os elefantes que já não deixam ver mais nada na sala. Criou-se a noção que falar nos problemas é criá-los, como se os elefantes fossem embora sem que alguém os acordasse.

É desesperante, o atrito mental na hora de abrir o coração e expressar um sentimento. Mais desesperante ainda, é expressar um sentimento e ver o interlocutor fechar-se em copas, dentro de uma muralha intransponível.

Talvez devido à falta de comunicação, talvez devido à má comunicação com os que o rodeavam, Peter Gabriel fala desta muralha na sua música desde os tempos dos Genesis. O álbum "The Lamb Lies Down On Broadway" não é mais que uma amálgama de metáforas sobre isolamento e alienação de Peter, quando tinha apenas 24 anos. As estalactites e as estalagmites de "In The Cage" enclausuravam Rael (anagrama de Gabriel) nas catacumbas de Manhattan e protegiam-no do mundo mau lá fora, ao pé de pessoas. Ugh, outra pessoas.

Mais tarde, no álbum sem título de 1980 (conhecido por "Melt", devido à sua face que aparece derretida na capa), Peter deu conta da sua dificuldade em lidar com outras pessoas. "Sabes que eu detesto magoar-te, detesto ver a tua dor, mas não sei como parar, não sei como me controlar", dizia em "No Self Control", já com 30 anos e a perfeita noção das suas dificuldades na comunicação com quem ama.

"Man I'm losing sound and sight of all those who can tell me wrong from right
When all things beautiful and bright sink in the night"

"Signal To Noise" aparece muito mais tarde, depois dos 50, após inúmeras horas de psicoterapia, presumo eu. Mas não é por isso que Peter Gabriel já resolveu os seus problemas na comunicação. Infelizmente não é a idade, nem o falso sentimento de maturidade adquirido com o passar dos anos, que resolve os problemas de comunicação. É preciso falar sobre isso.
"Receive and transmit"

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Guns N' Roses - "Don't Cry" (Versão original de 1987)

"I know how you feel inside, I've been there before"


Numa altura em que se fala com insistência ensurdecedora (mas ainda sem grande fundamento) do regresso de Slash e Duff aos Guns N' Roses, hoje mostro um exemplo da magia criada quando os microfones se ligavam numa sala com o gangue original.

De certeza que já ouviram "Don't Cry". Estão com certeza familiarizados com a versão que passa nas rádios desde 1991, incluída no primeiro volume do álbum tudo-à-bruta "Use Your Illusion I", devidamente acompanhada por um videoclip épico realizado por Andy Morahan (cujos trabalhos à data incluíam clips de Wham!, Pet Shop Boys e The Human League):




Esta conhecem, certo? Se viveram no planeta Terra nos últimos 25 anos, não há maneira de não reconhecerem isto.
O que talvez não sabem é que "Don't Cry" remonta aos primórdios dos Guns N' Roses, quando Tracii Guns e Rob Gardner ainda faziam parte da banda, antes de serem substituídos por Slash e Steven Adler, respectivamente. Se não vejamos: o primeiro concerto dos Guns conforme nós conhecemos e amamos foi a 6 de Junho de 1985 (ainda nem eu era nascido) no Troubadour, West Hollywood, após apenas um dia de ensaios (!!!) com Slash e Steven. Foi assim:



Flyer do primeiro concerto dos Guns N' Roses com a formação clássica: Axl, Izzy, Duff, Slash, Steven;
Nas fotos ainda estão Tracii Guns e Rob Gardner

Segundo o livro "Reckless Road: Guns N' Roses and the Making of Appetite for Destruction" (e já agora, o setlist.com), os Guns tocaram "Don't Cry" no seu primeiro concerto. Este vídeo afirma ser dessa noite (mas eu não ponho as minhas mãos no fogo por isso):




Já o "Watch You Bleed: The Saga of Guns N' Roses" (só grandes títulos de livros) confirma que "Don't Cry" foi um dos primeiros temas que Axl e Izzy escreveram. O tema era um habitué na setlist durante 1985 e 1986 (aqui em versão acústica em 1985) e no entanto, nós só ouvimos a versão de estúdio 6 anos mais tarde. Mas porquê o hiato?
Simples.
Quando os Guns assinaram finalmente com a Geffen Records em 1986 (o que foi uma decisão arriscadíssima da editora, uma vez que eram conhecidos em Hollywood por serem um camião-cisterna descontrolado numa cidade a arder), "Don't Cry" foi gravado em estúdio para o álbum "Appetite For Destruction". Esta é a versão que podemos ouvir em cima. Mas depois apareceu "Sweet Child O' Mine" e a banda decidiu incluir apenas uma balada no álbum, de forma a representar fidedignamente o estilo de vida vicioso que levavam na época. O resto é História. O camião-cisterna ainda durou uns anos, mas eventualmente explodiu a meio dos anos 90.

A versão original de "Don't Cry", gravada em 1987, foi esquecida na gaveta e apenas recuperada num CD single, rotulada como Demo. Mas é muito mais que isso. É mais e é mais até que aquela versão limpinha e sanitizada que conhecem desde 1991. Hoje recupero-a, suja, crua e dura. Se fecharem os olhos, quase conseguem sentir o cheiro a látex e Jack Daniels.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

David Bowie - "Speed Of Life"



Cinco anos. Parece impossível, mas o blog faz cinco anos. São cinco anos desde que comecei a escrever sobre música com alguma regularidade. São cinco anos em que tudo mudou, desde a minha vida, à minha escrita. São cinco anos que concorreram com a fase mais louca da minha vida. As histórias são imensas, algumas foram aqui relatadas, outras apenas insinuadas e muitas deliberadamente escondidas, com risco de perder emprego e namorada. Ui, dessas então, perdi inúmeras nestes cinco anos, mais do que um mero blog de fundo de rua na blogosfera poderia comportar. Mas deixemos essas epopeias de lado por hoje. Mais que histórias que não podem ser contadas, este blog foi um receptáculo de sentimentos e de emoções, porque são esses os impulsos neurológicos associados à música - a força motriz do meu blog e da minha vida. Em muitas ocasiões, ao longo destes cinco anos, ambos se confundiram.

São cinco anos a amaldiçoar a escolha do nome do blog. Escolha musical do dia? A sério? Poderia dizer em minha defesa que simplesmente não estava inspirado naquele dia; que mandei ao ar o primeiro nome que me veio à cabeça, como aquele e-mail que criámos quando tínhamos 14 anos e fomos buscar a um título de uma música, anexando a idade ou o ano de nascimento em sufixo. Mas não. Eu pensei mesmo nesta merda. Porque na verdade, o blog não faz cinco anos, mas sim SEIS ANOS. Tchi, que golpe de teatro! Pois é, foi exactamente HOJE, há seis anos que criei o (também genialmente baptizado) Rock na prateleira. O conceito desse blog era ligeiramente diferente do Escolha musical e bem mais ambicioso: desafiei-me a dissecar a fundo a criação, edição e reedições de todos os álbuns que já ouvira, classificando-os no fim. Foi um desafio que a mim próprio me recusei. Demasiado trabalho associado.

Rock na prateleira ficou na prateleira indefinidamente e durante um ano ruminei conceitos diferentes para um blog. Estávamos em 2010 e começava entretanto o advento do Facebook. Como a maior parte da população ocidental, deixei-me de hipsterices e também eu me alistei na rede social por esta altura. E como seria de esperar, comecei a expressar-me no Facebook através... de música. No meu grupo de amigos do Facebook (que na altura se limitavam mesmo aos amigos / conhecidos com quem me cruzava com frequência na vida real), era eu quem percebia mais do assunto e achava que tinha que partilhar com eles o meu conhecimento. Fazia-o todos os dias e por isso comecei a chamar-lhe Escolha musical do dia. Mas o interesse dentro do grupo era diminuto, pelo que regressei à ideia do blog para tentar encontrar quem me entendesse do lado de fora.

E foi assim que em 2010 refundei o blog, desta feita com o (genial...) nome de Escolha musical do dia. Qual não foi a minha surpresa quando percebi que afinal, do lado de fora da redoma onde vivia, estava uma multidão. Uma multidão de maluquinhos como eu, que amam a música como eu amo e sentem o que eu sinto. E nunca mais me senti sozinho.
A minha dívida para com o blog é enorme, o sentimento de pertença foi só uma das muitas coisas que ele me deu. De cabeça, o Escolha musical do dia deu-me um divã de confissão, deu-me uma coluna numa revista, deu-me amigos para a vida e até me deu uma namorada. Foi das melhores coisas que aconteceu na minha vida. Pena o nome. O nome que o blog devia ter foi mais tarde dado à minha coluna na NiT e depois ao blog onde publico os artigos que lá escrevo - Rapsódia Boémia. Curiosamente, criei o Rapsódia Boémia dias depois de ter fundado o Escolha musical do dia, mas como rapidamente ganhei aqui a notável média de um visitante por dia (que, ou vinham enganados, ou eram a minha mãe), achei que não podia defraudar os leitores e por isso nunca mudei o nome ao tasco. Enfim.

Pensei bastante no tema para acompanhar este post comemorativo. Primeiro considerei "Five Years" do David Bowie, mas esse é um tema que lamenta a tragédia de que a Humanidade só tem mais cinco anos de vida e eu espero que blog viva bem mais que isso. Em oposição a esse conceito, pensei em "Long May You Run" de Neil Young, mas esse é um tema demasiado luminoso para a escuridão que foram os últimos cinco anos. Voltei a Bowie. Se há artista que representa bem o que foram estes 5 anos, esse artista é David Bowie. Pensei então num álbum que assume um significado muito pessoal. Pensei no labirinto emocional de "Low", o álbum que, na sua loucura, na sua intensidade e na sua incongruência, melhor resume os últimos cinco anos. Amo os anos que passaram tanto como amo este álbum. Não os trocava por nada.


Este post vem acompanhado, como não poderia deixar de ser, de uma edição remasterizada do banner do blog.


Edit: E não é que Bowie desvendou hoje o seu novo single do álbum "Blackstar" a ser lançado em Janeiro? Coincidências.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

John Lennon - "How?"

"How can I give love when I don't know what it is I'm giving?"


Hoje o John Lennon faria 75 anos. O meu John. Sim, meu. Não que eu tenha especial orgulho nisso, porque toda a vida eu quis ser Paul. Mas não é Paul quem quer, é Paul quem pode. E eu não sou Paul, sou John. Temperamental, apaixonado, obstinado, conduzindo o dia-a-dia com o sangue a ferver nas veias. Não é fácil ser assim, acreditem. E também não deve ser fácil para quem me rodeia. Preferia a constância, o método e a segurança do Paul. Ou pelo menos acho que preferia. Mas talvez assim perdesse a piada.

Vejam aqui quem vocês são. O meu resultado foi (expectavelmente):


Para celebrar o John, deixo-vos "How?", do álbum "Imagine" (1971) -  um dos seus temas mais confessionais. Isto se for possível sequer fazer uma consideração deste tipo, já que todos os temas de John (pelo menos na sua carreira a solo) são confessionais. Os seus álbuns a solo são como que actas de várias sessões de terapia psicanalítica ao longo dos anos. Talvez por isso sejam tão inconsistentes e talvez por isso a sua carreira a solo seja tão ignorada. Ninguém quer olhar para John como ele é, preferimos manter a imagem estereotipada de um puto rebelde, de um excêntrico a lutar pela paz numa cama com uma chinesa, ou de um mártir que caiu aos pés de um louco. Mas John é muitíssimo mais complexo que isso. Ouçam, se conseguirem, a discografia a solo de John (álbuns avant-garde incluídos). É um desafio de mind games.

John está longe de ser perfeito (alguns idiotas formatados da internet descobriram agora isso), mas não é por isso que não o devemos amar por aquilo que ele é. Quem de nós é perfeito, anyway? Que direito temos de julgar quem se deu todo à sua arte e fez tudo o que podia para mudar o mundo que odiava onde vivia?

"How can I have feeling when I don't know if it's a feeling?"

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

David Gilmour - "Coming Back To Life" (live)

"I took a heavenly ride through our silence, I knew the moment had arrived for killing the past and coming back to life"



Rattle That Broken Fout Tour Journal

Tomo IV - Siga para Florença

Toda a vida ouvi maravilhas de Florença. Quando era pequeno, foi para lá o Rui Costa - o meu primeiro ídolo do futebol - e fiquei com o sonho de vestir aquela bela camisola patrocinada pela Nintendo. Não a vesti.
Falaram-me dos jardins (ao crescer em Castelo Branco, ouvia que o Jardim do Paço era uma miniatura dos alegadamente magníficos jardins de Florença). Não fui lá.
Falaram-me das praças, das catedrais, dos museus, das estátuas, da Galleria degli Uffizi, do Batistério de São João, da Ponte Vecchio. Tudo coisas que eu não vi, lugares onde eu não estive.
Falaram-me que ia ser uma viagem mágica, que Florença ia ficar comigo para sempre. Isso, vai. Porque a minha viagem a Florença não teve nada do que me falaram, mas teve mais um concerto de David Gilmour. O terceiro.

Recordo que na noite anterior tinha visto o segundo concerto da digressão, na Arena de gladiadores de Verona. Por isso não houve tempo para tretas de turismo. Na manhã seguinte, foi levantar e apanhar o Frecciarossa em direcção a Florença. Siga para bingo.

Chegado à estação de Santa Maria Novella, sigo directamente para o Ippodromo del Visarno.
Junto ao hipódromo, quase a bater nas seis da tarde, ouço sons de instrumentos vindos do palco. Estão a fazer o soundcheck! Começam com alguns temas do novo álbum. Nesta altura, dois concertos e outros tantos soundchecks depois, os temas já não constituem grande novidade. Até aqui, a setlist dos concertos fora sempre a mesma e não esperava grandes alterações para esta noite. Mas fico por ali. Para quê ver as maravilhas de Florença quando se tem a maior das maravilhas sonoras mesmo ao pé de nós?

Ouve-se um som grave. "É a introdução de "Sorrow"", penso. Confirma-se: David pratica o choro da sua Stratocaster. Ainda não ficou bem no "ponto", mas está quase.
Pausa.
Conversa-se no palco. Volta a ouvir-se o mesmo som grave. toum-toum... tãe-tãe... "Coming Back To Life"!!! Quatro notas chegam para identificar novo elixir da alma retirado de "The Division Bell". É a novidade da noite, espero.

Na foto não dá para ver, mas por trás daquelas árvores vem o som de "Coming Back To Life".

Ao contrário do concerto de Verona, em Florença há lugares marcados, por isso a entrada é feita de forma ordeira e lá dentro, salvo alguns grupos demasiado entusiastas, está um ambiente relativamente pacífico. Pelo menos até eu ter a brilhante ideia de comprar um Tour Program. Vendo o motim à frente da barraca do merchandising, hesito. Mas "estou de canadianas", penso. "O que é que pode correr mal?". Mal sabia eu.
Aproximo-me da multidão junto ao merch e não passa muito tempo até que se dê início ao empurranço... Que poucos minutos depois, dá lugar ao esmagamento. Canadianas? Who cares? Os italianos de certeza que não. Ao meu lado está um senhor com os seus 50 anos, aspecto fino de latifundiário da Toscana, que me põe a mão na cara e me empurra para trás para ganhar posição, num gesto que na grande área daria lugar a penalty. Siga para bingo.

O concerto (o terceiro) foi, musicalmente, o melhor de todos. Depois da insegurança de Pula e da tensão de Verona, em Florença, a banda já estava coordenada e saiu tudo quase ao milímetro. E tivemos, claro, a grande novidade: "Coming Back To Life". Faltou a mística das arenas romanas, a virgindade de Pula e a electricidade de Verona. Lados diferentes das mesmas moedas. Florença foi mais polido, mas também mais previsível.

Fiquem com "High Hopes":

David Gilmour - "High Hopes" live at Ippodromo del Visarno, Firenze

Posted by Nuno Bento on Quarta-feira, 16 de Setembro de 2015


No fim do terceiro concerto em apenas quatro dias, já estava habituado a isto. Tirar-me esse hábito foi como se me privassem da minha heroína (não que eu já tenha passado por essa experiência, ok Mãe? Eu sei que lês isto), mas já não dava mesmo para seguir David para Orange, demasiado fora de mão. A Oberhausen, foi o "Miguel" (esse mesmo) e a Londres, só se fosse doido, tendo em conta os preços dos bilhetes para o Royal Albert Hall. Era preferível ir aos EUA, ao outro lado do Mundo, na légua de 2016 da digressão, do que ir a Londres. Por isso, olhem, vou mesmo (por esta é que não estavas à espera, não é Mãe?).

Em 2016, lá estarei em Los Angeles, no histórico Hollywood Bowl, casa de noites lendárias de Beatles, Elton John e tantos outros, para mais duas doses de David (com possibilidade de uma terceira, no Forum de Inglewood). Siga para bingo.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Paul McCartney & Michael Jackson - "Say Say Say" (2015 Remix)

Dizem que a Segunda-Feira é o pior dia da semana, mas não para mim. Para mim, é a Terça-Feira que devia ser despejada numa sala às escuras com o Pedro Guerra e o Bruno Carvalho. Terça-Feira é o dia em que a ressaca do último fim-de-semana já desvaneceu e ainda estou demasiado longe de Sexta-Feira para pensar em abrir o Jameson. Terça-Feira é o dia em que passo a hora de almoço na aula de francês (desculpa lá, Gorete) - fala-se muito nas vítimas do holocausto, mas só fala nisso quem nunca teve aulas de francês quando devia estar a comer um bom bitoque.
A Terça-Feira é uma merda, ponto.
Serve este raciocínio para inferir que o que a minha Terça-Feira precisava era disto:

"Say, say, say what you want, but don't play games with my affection"

Paul McCartney and Michael Jackson 'Say Say Say [2015 Remix]'

Paul McCartney and Michael Jackson - '#SaySaySay [2015 Remix]'Song taken from 'Pipes of Peace 2015 Remaster' - in stores nowVideo directed by Ryan Heffington#PaulMcCartney #MichaelJackson #PipesOfPeace

Posted by Paul McCartney on Terça-feira, 6 de Outubro de 2015


aqui dissera que no fim da década de 70 e início da década de 80, Michael Jackson e Freddie Mercury eram bons amigos. Mas o verdadeiro mate de Michael nesta altura era mesmo Paul McCartney. Talvez o Cute Beatle se revisse na dureza da fama precoce de Michael e o quisesse ajudar, ajudando-se também a si mesmo, ao navegar na onda da maior superestrela mundial da época.
Paul já tinha sofrido com a Beatlemania e era de facto, a pessoa indicada para aconselhar Michael. E aconselhou-o bem: Paul persuadiu Michael a investir bem o seu dinheiro, aplicando-o em direitos de autor. Michael foi bem mandando e em 1985 investiu muitos milhões em direitos de autor de músicas... dos The Beatles (aproximadamente 47.5 milhões de dólares por 160 a 260 temas, incluindo "Yesterday" e "Let It Be"). E assim a amizade terminou abruptamente.
Paul só recuperaria os direitos das suas próprias canções em 2013, já depois da morte de Michael.

Mas voltemos aos tempos em que Mack and Jack eram best mates.
Uma amizade entre duas estrelas nos anos 80 significava a palavra mágica dueto (onde é que andam os duetos hoje em dia? Eram uma coisa tão boa nos 80s. Mas onde é que andam as estrelas, anyway?). Macca e Michael juntaram-se várias vezes em estúdio entre 1981 e 1982 e dessa colaboração nasceram dois temas: "Say Say Say" (1981) e "The Girl Is Mine" (1982). O primeiro tema a ver a luz do dia até seria o segundo a ser gravado - "The Girl Is Mine" - como o primeiro single do álbum megaseller "Thriller". "Say Say Say" só seria lançado em 1983, como single de avanço do álbum "Pipes Of Peace", de Paul McCartney.


"Pipes Of Peace" foi esta semana lançado em formato de luxo, conjuntamente com "Tug Of War" - o álbum que juntou Paul e Chris Martin (o produtor dos Beatles) novamente. E que grande álbum.
É nessa campanha que agora surge a nova remistura de "Say Say Say", com honras de novo vídeo. E que grande remistura foi feita aqui. O conceito foi simples, mas eficaz: pegaram nas faixas vocais originais de Michael e de Paul e trocaram as linhas que cada um cantava, relativamente à versão original. Podemos assim praticamente afirmar que as versões de 2015 e 1983 são complementares.
Eis o original:



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

New Order - "Tutti Frutti"

"Non è ancora il momento di entrare. Non è ancora il momento di..."


Antes de mais, uma constatação: a capa do novo álbum dos New Order é uma das melhores artworks que vi nos últimos anos. É uma ideia tão simples e tão enigmática. Será que estão lá um M e um C, das iniciais do álbum? Ou estão lá um N e um O, das iniciais da banda? Será que é uma mensagem subliminar que eu não consigo ler? Fuck knows. Passo dezenas de minutos a olhar para aquilo e não faço a mínima ideia do que é. Mas é espectacular. Se consegue pôr a imaginação a trabalhar, não se pode pedir mais.




Para além da capa, o que dizer então deste "Music Complete" - o primeiro álbum dos New Order desde a saída do meu elemento preferido da banda, Peter Hook? Cuidado. Muito cuidado. Ou "foda-se!", também podemos dizer isso. No meu livro, "Music Complete" é somente o melhor álbum dançável desde que o "Invaders Must Die" dos The Prodigy invadiu os meus ouvidos em 2009 e é somente o melhor dos New Order desde 1989, ano de "Technique". Chega para vos chamar a atenção? Boa.

O arranque de "Music Complete" é feito com "Restless", um típico single dos New Order. Bernard Sumner põe-nos logo à partida em casa, confortáveis, quando nos pergunta "how does it feel?". Onde é que já ouvimos isto? Numa segunda-feira azul, talvez? Pois. O tema poderia vir dos anos 80, mas também poderia vir dos 90s, ou dos 00s, de tão New Order que é. Instant classic. É a música mais amigável do álbum e o single óbvio.

As coisas ficam mais interessantes quando passamos para o segundo tema. "Singularity" começa como um tema dos Joy Division, mas por volta da marca dos 50 segundos salta para território dos New Order. Fica marcado o antagonismo entre a música downer dos JD e a música upper dos NO e como elas podem funcionar na mesma personalidade densa que é a banda de Manchester.

Falando em Manchester, é para lá que vamos logo a seguir em "Plastic". Logo no início levamos com Acid House e BUM, estamos na Haçienda. Fookin' Madchester all over again. É possível ter saudades de um tempo que nunca vivi, num lugar onde nunca estive? Não interessa. Que saudades da Haçienda, onde estão agora aqueles apartamentos trendy (mas ofensivos) e um dia foi o sítio mais cool mancuniano. O álbum, esse, continua a ganhar passada. 

Hook já não está lá, mas os hooks não faltam em "Music Complete" (haha, viram o que eu fiz? ya, brutal). A cavalgada do refrão de "Tutti Frutti" (You've got me where it hurts / but I don't really care / cause I know I'm OK / whenever you are there) é mais um clássico Pop. Mas o toque de Midas vem a seguir, quando entra a voz de um narrador de um qualquer filme soft porn italiano de Tinto Brass (julgava que nunca ia mostrar a minha sabedoria nesta matéria), a atirar "TUTTI FRUTTIIIIII". Eishhh... E ainda só vamos no quarto tema.

Depois chega o funk. Porra, que os velhotes de Manchester querem mesmo bater em todas as portas da dança. O riff de piano de "People On The High Line" é das maiores pérolas deste álbum, a lembrar aqueles doces Pop deliciosos dos early 90s, quando George Michael e Madonna davam masterclasses de como fazer um single Pop.

O resto do álbum? Sei lá! Hei-de ouvi-lo brevemente. Para já, estou em audição repetida e obsessiva da primeira metade. As primeiras 5 faixas são do melhor que tenho ouvido no panorama da música dançável. Que maravilha de álbum. Agora que a música de dança está tão em voga e é tão popular (tomando conta até dos festivais, como sabemos), os velhotes voltam a mostrar quem é que sabe disto.

"Music Complete" entronca um árduo desafio para mim. Numa altura em que ainda estou a recuperar de um pé partido e não posso dar azo à grande motivação deste álbum - DANÇAR - como é que eu consigo ouvir isto sem, no mínimo, bater o pé? Não me fazem a vida fácil, estes senhores dos New Order.

Nota: Falta-me fechar a saga do Rattle That Broken Foot Tour, eu sei. Mas tive que fazer um interlúdio para os New Order, não conseguia aguentar mais calado sobre este álbum. Este tema é parcialmente em italiano, por isso estamos enquadrados.