quinta-feira, 20 de outubro de 2016

David Bowie - "Killing A Little Time"



A última das três faixas que faltavam ouvir das Blackstar Sessions está aqui. "Killing A Little Time" é a mais fascinante e mind-bending das três canções (reparem que poderia ter dito "perturbadora", mas este é dos casos que o anglicanismo cai muito melhor, right?) e como sempre acontece quando se fala de Bowie, principalmente na sua fase pós-milénio, é impossível de categorizar. Bowie atingiu um estado de tal aristocracia sónica desde a viragem do primeiro dígito do calendário, que parece controlar as ondas com uma batuta só dele. Para ser simplista, isto não se parece com nada que já ouvimos antes e no entanto, tem elementos de tudo um pouco.

Sabem quando abrimos várias janelas no Youtube e elas começam inadvertidamente a tocar todas ao mesmo tempo, criando um ruído indecifrável? Não raras vezes, "Killing A Little Time" parece-se exactamente com isso. Esqueçam os tempos do rock progressivo, em que se colavam sequencialmente vários temas com andamentos diferentes (Bowie fê-lo com mestria em "Station To Station") e assim se criava uma obra complexa. Não. Bowie inventou agora um novo método: a colagem simultânea. Há uma guitarra a tocar um riff de metal à frente, temos um baterista lá atrás a fazer a cena dele, temos um Bowie a mandar versos fora dos lugares comuns, de vez em quando aparecem uns saxofones perdidos e ainda há um piano nervoso, a tocar ora à frente, ora atrás na mistura, como um balão que se esvazia caótico, enquanto embate nos quatro cantos da sala.
Parecem três músicas diferentes a tocar ao mesmo tempo, às vezes de forma confusa, às vezes num casamento inesperadamente perfeito. Deixa-nos a bater mal, mas no fim, resulta. Como diz a inviolável sabedoria popular, primeiro estranha-se e depois entranha-se.

Faz-me lembrar a primeira vez que ouvi "Blackstar", ainda antes da morte de Bowie e pensei "WTF"? Estava no carro, a ouvir a Radar no regresso a casa e enquanto fazia a descida de Monsanto na A5, telefona-me o meu chefe, provavelmente estacionado poucos metros à frente ou atrás no mesmo engarrafamento: "Nuno, estás a ouvir isto?! O Bowie passou-se de vez!". Eu só pude concordar. Fiquei largos minutos a processar o que tinha acabado de ouvir. É engraçado estar a contar este episódio ao detalhe e ao mesmo tempo me aperceber que "onde estava a primeira vez que ouvi Blackstar" é o novo "onde estava quando os aviões embateram nas torres gémeas" ou, para a geração mais velha, "onde estava no 25 de Abril". Mas divago.

As outras duas faixas chamam-se "No Plan" e "When I Met You" e, se ainda não tiveram oportunidade de ouvir, estão aqui e aqui, respectivamente. "No Plan" é um óbvio out-take de "Blackstar" e poderia figurar no álbum em qualquer parte, tanto em termos de lírica, como de sonoridade. "When I Met You" é bem mais interessante: é perigoso e cortante e por isso soa a algo saído de "Scary Monsters". Não é bem o mood de "Blackstar", mas é uma das melhores faixas das últimas sessões de gravação de Bowie. Uma coisa é certa: David Bowie desafiou os limites até ao fim. Só podemos imaginar até onde os poderia esticar ainda mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Phil Collins - "I Cannot Believe It's True"

" I think it must have slipped your mind, but I remember not so long ago I gave it all, it's gone and I gave it all to you"


Agora que está confirmado o regresso de Phil Collins aos espectáculos, esta crónica que escrevi em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca.
Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.

Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil. Para mim, é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali" na minha vida. É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou"), uma sombra do poço de vida que já foi.

Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha sobre ele. Primeiro quando o elevaram a superestrela, depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fez.
Phil nunca conseguiu lidar com esta roda viva e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os da sua vida depois de Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando as coisas pioraram no fim dos anos 90 e início dos 00s, Phil isolou-se ainda mais - quis uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.

Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR: a mulher pediu-lhe o divórcio, levou-lhe os filhos, tirou-lhe o dinheiro e Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá e conversas com a linha do suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.

Eventualmente Phil começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014, a sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou) e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. E eis que pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar uma decisão errada.

Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris. Mas mais uma vez ignora que aquilo que realmente o protege e lhe faz bem é o chapéu-de-chuva dos Genesis.

O que Phil deveria ter feito era o seguinte: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções especificamente. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.

Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Whatever happens, I will always love you, Phil.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Queen - "You Take My Breath Away"

"Look into my eyes and you'll see I'm the only one"

A minha vida adulta numa música dos Queen

1. A melhor canção de amor alguma vez escrita

Penso que nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deve ser unânime e axiomaticamente aceite que a melhor canção de amor alguma vez escrita é "You Take My Breath Away" dos Queen. Quem não corrobora desta doutrina, ou nunca ouviu a canção (façam favor), ou anda com o coração parado e ainda não foi avisado.

Vem esta observação a propósito da chegada dos dias curtos, das primeiras chuvas e das temperaturas mais baixas, que eu recebo sempre de duas formas: com uma camisolinha de malha e com o álbum "A Day At The Races" em volume máximo à saída do trabalho, já de noite. A introdução do álbum anuncia a chegada de algo perigoso e sombrio, mas majestoso e irresistível. O que quer que isso signifique em concreto.

Para mim, significa a minha vida. O álbum "A Day At The Races" acompanhou as várias fases da minha vida adulta, servindo de pano de fundo para uma série de momentos-chave que anunciavam uma mudança. A própria chegada do álbum à minha vida foi uma obra do acaso e do absurdo ou, por que não, do destino.

2. Puberdade

Tinha 13 anos e vivia eu o auge da minha puberdade reprimida. Torrentes de transformações em mim e em todos os que me rodeavam, que me deixavam confuso, perdido e vetado ao abandono como a única pessoa sã que restava no mundo. Fui almoçar com o meu Pai à hamburgaria do Centro Comercial de Santiago, em Castelo Branco. Hoje, é (mais) um centro comercial decrépito, a apodrecer com uma epidemia de lojas fechadas, mas no início de 1999 borbulhava cheio de vida, cores e cheiros. Cheiros esses que vinham em grande parte da hamburgaria do "Chico Omelete", que servia uns hambúrgueres deliciosos, acompanhados de umas batatas fritas carregadas de sal e igualmente irresistíveis. Passaram-se 17 anos e - como é que é possível - ainda me consigo lembrar vividamente daquele cheiro que nunca mais cheirei. Mas divago. Voltemos à mesa onde me sentava com o meu Pai, nos bancos altos de metal.

Esta era a fase em que começava o meu conflito irresolúvel com o meu Pai. Já começava a ter opiniões (contrárias às dele), já me achava nietzschianamente independente e pior, já queria mandar. As nossa conversas acabavam invariavelmente em discussões feias e diferenças irreconciliáveis, menos quando falávamos sobre um assunto: música.

Na música, a nossa sintonia era (ainda) total. A viver a minha fase de auto-descoberta e descoberta do mundo, já sentia que o que tinha em casa não chegava. Precisava de mais. Acima de tudo, queria satisfazer a minha curiosidade e mergulhar a fundo na minha banda preferida. Queria saber tudo sobre os Queen, conhecer o que havia para lá dos "Greatest Hits" e do "Live At Wembley".
Os olhos do meu Pai arregalaram-se e naqueles bancos vivemos um raro momento de bingo paternal. Ali falou-me de histórias lendárias de cassetes dos Queen que haviam vencido centenas, milhares de quilómetros até às suas mãos nos anos 70 e que ele nunca mais vira ou ouvira. Ali enumerou-me nomes de álbuns, que eu fingi não conhecer para não lhe moderar a luz do palco. Preciosidades que eu tinha que ouvir e que também ele tinha curiosidade em voltar a ouvir.

À cabeça do tesouro, estava um álbum: "A Night At The Opera". Era ali que tínhamos que começar. E foi assim que enquanto o meu Pai tomava um café e fumava um cigarro no restaurante, me autorizou a ir à loja de discos do centro comercial - local sagrado das minhas peregrinações ao centro da cidade - encomendar o CD ao Sr. João. Quando fiz o pedido, o Sr. João não percebeu bem o meu inglês e pediu-me para escrever no seu caderninho, que trazia a Lisboa como cábula do que tinha que comprar naquela semana. Como já devem ter adivinhado, por obra do destino, do acaso, ou do absurdo, naquele caderno ficou escrito "A Day At The Races".
Juro que até hoje não sei como é que aquilo aconteceu. Saí da loja do Sr. João convencido que tinha encomendado o álbum preferido do meu Pai e afinal encomendei o meu álbum preferido. Só que eu ainda não sabia, porque nunca o tinha ouvido.

3. Adolescência

A partir desse dia, "A Day At The Races" acompanhou-me inexoravelmente em todas as transformações da minha vida, como quem anuncia uma nova fase. "You Take My Breath Away", em particular, serviu sempre como pano de fundo a momentos pivotais da minha sempre turbulenta relação com o sexo feminino.
Quando a ouvi pela primeira vez, o minimalismo asfixiante da música deixou-me perturbado. Nunca ouvira nada assim, tão simples (um homem, um piano e o silêncio) e tão poderoso ao mesmo tempo. Nos primeiros tempos, saltava a segunda faixa do CD, directamente para "Long Away". Até que me deixei conquistar por "You Take My Breath Away", to the point of obsession. Sonhava com o dia em que conhecesse uma miúda a quem pudesse cantar aquela letra romântico-obsessiva que falava de mim e do que eu queria para a minha vida.
Os anos passaram e esse dia nunca mais chegava. Olhava à minha volta e não via ninguém que pudesse merecer, muito menos perceber a magnitude da canção. Até que o dia chegou.

4. Adulto

Aos 16 anos calhou na minha turma uma miúda mais velha (repetente, portanto) que carregava uma escuridão enigmática e caminhava com uma majestosidade única na escola. Ela sim, podia perceber; parecia encaixar perfeitamente naquela canção. A miúda mais velha tornar-se-ia poucas semanas depois na minha primeira namorada (e deu o mote para a maioria das restantes).
Na vertigem da urgência, sem querer perder tempo nem deixar fugir a oportunidade, logo na primeira noite de namoro citei-lhe os versos de "You Take My Breath Away" na íntegra, enquanto estávamos sentados e agarrados nos bancos de jardim em frente ao liceu. Não sem que ela a meio me perguntasse se eu "ia mesmo cantar a música toda". Como se isso estivesse em questão. Nem que naquela hora passasse ali um tornado, ninguém arredava pé daquele banco sem que eu terminasse os versos do Freddie Mercury. Mas convenhamos, aquela pergunta já não augurava nada de bom. 
Durámos um mês.

Um ano mais tarde, noutro banco de jardim, em frente a outra escola, a mesma cena. Desta vez estava na Alameda, em frente ao Instituto Superior Técnico. Era o segundo dia de namoro (também com uma miúda mais velha, go figure) e sem me aperceber que estava a repetir a efeméride da há um ano em circunstâncias estranhamente similares, voltei a cantar "You Take My Breath Away" integralmente. Num trágico quatro em linha de coincidências, também ela me perguntou: "vais cantar tudo até ao fim?". Devia ter lido os sinais. 
Ainda assim, namorámos mais 5 anos. Nada mau.

Fast-forward 12 anos e dos bancos da Alameda, passamos para os bancos do meu carro. Desta feita não sou eu que canto, deixo as honras para o Freddie. Pela terceira vez na minha vida, partilho "You Take My Breath Away" com uma miúda e agora, pela primeira vez, ela não pergunta quando é que a música acaba. Qual banda sonora profética, volta a marcar o início de mais uma fase na minha vida. E feliz. 
Durou quase 2 anos.

Pode ser que à quarta seja de vez.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Bruce Springsteen (The Castiles) - "You Can't Judge a Book by the Cover"




Ainda agora comecei a ler a autobiografia do Bruce Springsteen e já estou de coração cheio. Bastaram meia dúzia de capítulos para perceber como funciona o livro do Boss: todo ele está divididinho em pequenos capítulos de 4/5 páginas que se lêem como canções, uma vez que à semelhança das canções de Bruce, cada um destes actos conta uma história.


Bruce escreve em prosa na mesma linguagem épico-mundana que já conhecemos da sua música (descrevendo lugares, personagens e acontecimentos mundanos de forma épica) pelo que, juntando à estrutura projectada em pequenas short-stories, faz com que este pareça um álbum novo de Bruce Springsteen - a sua antologia definitiva, onde pôde contar a história da sua vida sem as restrições da duração de um disco. Para um fanático do Bruce como eu, é mesmo de deixar o coração cheio. No fim de cada capítulo, só apetece abraçar o livro.

O fim-de-semana está aí e agora que o Verão se foi embora e a escuridão ganha terreno nos dias, não há programa melhor para passar o tempo, se não a ler o novo álbum de Bruce Springsteen. Bem, na verdade até há literalmente um álbum novo - o "Chapter And Verse". Mas este será o caso raro em Bruce, em que é preferível ler o livrete que ouvir a música.

Mais uma nota: se puderem, leiam a versão original. As palavras do Bruce só devem ser lidas nas suas próprias palavras, não há volta a dar. De outra forma, deixa de ser Bruce Springsteen. Agora escusem-me este post rápido, que vou voltar para o meu livro (comprado em half-price na WHSmith do aeroporto de Luton! Sabe tão bem uma borla!).

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Oasis - "Shout It Out Loud"

"Never be enough to learn, the river's deep and the road is long"


Enjoados de Oasis? Não? Então tomem lá mais uma dose. Para hoje, mais um B-Side, desta vez de "Stop Crying Your Heart Out" e mais um exemplo daquele bonito nonsense que é ter um B-Side melhor que o A-Side.



Na sequência da enxurrada de posts sobre o período de "Standing On The Shoulder Of Giants", o post de hoje é importante para perceber duas coisas importantes sobre o período subsequente: 1. O estado de espírito de Noel é completamente diferente; 2. A sua apetência para escolher as faixas para o álbum continua nas ruas da amargura.
"Every night we hope and pray that we can do enough to keep our love"
Relativamente ao primeiro ponto, "Shout It Out Loud" mostra um Noel em recuperação, mais bem disposto, com novo casamento e a fé na vida reposta. Esta tendência é seguida, aliás, um pouco por todo o álbum, como podemos ouvir em "Little By Little" e "She Is Love".

Quanto ao segundo ponto, se as escolhas de Noel para "Standing On The Shoulder Of Giants" não foram as melhores, a selecção de temas para "Heathen Chemistry" não foi menos infeliz. De fora voltaram a ficar temas-chave como "Shout It Out Loud", "You've Got The Heart Of A Star", "Thank You For The Good Times" (embora este seja de Andy Bell), "Let There Be Love" (OUTRA vez, só apareceria no álbum seguinte) e um tal de "Stop The Clocks". Mas isso talvez já se devesse a uma carreira a solo que Noel tinha em vista para tempos não muito longínquos.

Mas há mais. Ainda falta falar em "Idler's Dream" e "Just Getting Older", que já tinham ficado de fora de SotSoG e acabariam por ser usados como B-Sides de "The Hindu Times", ou na versão demo de "Songbird", a milhas superior à que apareceu no álbum. É óbvio que não poderia haver espaço para tudo mas se pensarmos que "Heathen Chemistry" é o álbum mais fraco dos Oasis (eu pelo menos penso isso), então facilmente Noel lhe poderia subir a bitola de qualidade. Assim, ficou com o álbum mais pobrezinho da sua carreira.

domingo, 2 de outubro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (V.c)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback
II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Where Did It All Go Wrong?" | O mundo que espera lá fora
V.a. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Lado A)
V.b. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Lado B)
V.c. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Singles & Snubs)

V.c. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Singles & Snubs)

E eis que chegámos à última parte da última parte... Que por sua vez também está dividida em três partes. Na primeira - Singles - vamos analisar as minhas escolhas para B-Sides dos singles de "The World That Waits Outside" - "Solve My Mystery" (1º), "Go Let It Out" (2º) e "Gas Panic!" (3º). Na segunda - Snubs -, como o próprio nome indica, vamos olhar (mas rapidamente, que aleija a vista) para os temas que nem para B-Side serviram. Para a última parte ficam as despedidas.

1. Singles 

"Teotihuacan" (7:05)
("The X-Files: The Album", como faixa de Noel Gallagher)



Noel experimentou muito nas sessões de 1998-1999, mas foi em "Teotihuacan" que levou as coisas mesmo a sério. Provavelmente inspirado pelas suas colaborações com Chemical Brothers e Goldie, o tema soa mais a Massive Attack do que a Oasis e é tão fora de tudo o que já fizera, que foi lançado na banda sonora dos X-Files com o nome de Noel Gallagher a solo. Terá sido mesmo a sua primeira canção a solo, não contando, obviamente, com as colaborações com Chemical Brothers e Goldie. Noel terá achado que tinha que cumprir com a cota de Oasisismo que a editora (e o público) esperava dele e, em sua defesa, depois da implosão de "Be Here Now", a pressão sobre os seus ombros era gigantesca.

Eu queria mesmo incluir o tema em "The World That Waits Outside", mas aqui tenho que dar a mão a palmatória a Noel. "Teotihuacan" é demasiado longo e, para manter o álbum num LP apenas, o tema simplesmente não cabia. Como acho que o público merecia conhecer as diferentes facetas do que Noel é capaz de fazer, fica como faixa bónus do CD.

"Sunday Morning Call" (5:16)
(Demo | unreleased)


"I fockin' hate this next tune, I really fockin' hate it. Fuckin dreadful."
Noel Gallagher, faixa de comentários do DVD "Time Flies"

As palavras são de Noel Gallagher himself, não são minhas. Por alguma razão, "Sunday Morning Call" não só acabou em "Standing On The Shoulder Of Giants", como até foi single! How about that?
Eu não sou grande fã do tema, mas não tenho sentimentos tão fortes como o Noel. Certamente não o odeio. Em termos líricos, é consistente com tudo o que Noel escrevia nesta altura: "In your head, do you feel what you're not supposed to feel?" (lutas internas), "you take what you want but you don't get it for free" (concessões / trade-offs), "I'm not sure if it will ever work out right" (inseguranças).

"Sunday Morning Call" poderia ter entrado no Lado B de "The World That Waits Outside", mas simplesmente não era tão bom como os outros. Acho que esta Demo (superior à versão do álbum) teria dado um B-Side decente para o primeiro single "Solve My Mystery" e nós bem sabemos como Noel gosta de ter B-Sides de qualidade, não é?

Apesar de ser o tema que Noel mais detesta, "Sunday Morning Call" tem muitos fãs. Entre eles, um fã inesperado:
"I think it's about taking too much drugs and seeing everyone fall away.It's my favourite song on the album and I don't sing on it. Ain't that weird?"
Liam Gallagher, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

E esta, hein?

"Who Feels Love?" (5:56)
(Demo | unreleased)



Mais uma das escolhas WTF de Noel. Como é que raio ele chegou à conclusão que "Who Feels Love?" servia para o álbum e mais ainda, para segundo single?! It baffles me. A minha aposta é que Noel tenha ficado inebriado com os altos níveis de produção a que foi sujeito o tema e que, como em tantos outros casos, apenas servem para camuflar canções menos inspiradas. Noel não precisava disto. Talvez a produção psicadélica o fizesse recordar "Tomorrow Never Knows" dos Beatles, talvez os sintetizadores o fizessem lembrar Pink Floyd, não sei. O tema é fraco e não seriam múltiplas layers de sintetizadores que o poderiam salvar.

Demo original é mais seca que a versão oficial (menos reverb) e por isso mais "real" e de um modo geral mais satisfatória, embora o tema também beneficie da voz arrastada de Liam. Ainda assim, prefiro a Demo que, mesmo sendo um dos temas mais positivistas desta época, começa com Noel a suspirar "Cos I will lose it at any given point... uhhh...". Não admira que não tenha aparecido na versão final, ostensivamente mais aguada. A Demo fica então como B-Side do 2º single imaginário "Go Let It Out".

Também interessante é esta versão promocional, cantada por Noel, mas ainda mais carregada de produção psicadélica.

"(As Long As They've Got) Cigarettes In Hell" (4:18)
(B-Side de "Go Let It Out")



O segundo B-Side do 2º single nesta realidade paralela ("Gas Panic!") é "(As Long As They've Got) Cigarettes In Hell", tema que apareceu originalmente no single de "Go Let It Out". Cumpre como B-Side, mas pouco mais que isso.

Neste caso, escolhi a versão oficial, que apenas difere da Demo original, devido aos efeitos backwards adicionados na produção final. Soa melhor assim.

"Carry Us All" (4:06)
(Demo | unreleased)



E pronto, fechamos os B-Sides com "Carry Us All", mais um tema consistente com a lírica sombria de Noel por esta altura. Desta vez, o assunto é a perda de fé: "faith in any God will bury us all". Não é um tema particularmente inspirado, mas cumpre bem a sua tarefa como B-Side.

"Carry Us All" apareceu originalmente como B-Side de "Sunday Morning Call". A Demo é mais áspera (o que nestes casos tende a significa, melhor) e neste universo paralelo, fica para B-Side do último single "Gas Panic!".

2. Snubs 

"I Can See A Liar" (3:40)
(Demo | unreleased)



Não se percebe como "I Can See A Liar" chegou a SotSoG. Consta que o tema remonta às sessões de "Be Here Now" e, de facto, a nível lírico parece-se mais com algo saído desses tempos. "Now that I feel Godlike, there's nothing that can't be kissed" não tem qualquer ligação com o material que Noel escrevia durante 1998 e 1999. Mas se "I Can See A Liar" não serviu para "Be Here Now" (e temas como "The Girl In the Dirty Shirt" chegaram lá), então por que raio serviria para aqui?

Ainda assim, a dureza da Demo de "I Can See A Liar", qual tema psico-punk, torna-a automaticamente superior à versão oficial. Só falta aqui a voz de Liam uma vez que, sejamos honestos, Noel não foi talhado para as canções mais pesadas. Mas foi para isso que a mãe lhe deu um irmão mais novo, right?

"Put Your Money Where Your Mouth Is" (4:30)
(Demo | unreleased)


Meu Deus. Não há Demo, versão ou mistura que justifique a existência desta aberração. É muito provavelmente, o pior tema que Noel já escreveu. Só serve para causar dores de cabeça. Horrível.

"It's A Crime" (Demo) (4:18)
(Demo | unreleased)



Este não é bem snub. Na verdade, "It's A Crime" é um tema inacabado, que mais tarde iria dar origem a "Let There Be Love" e por isso justifica-se a sua ausência de "Standing On The Shoulder Of Giants". Só é pena que Noel tenha preferido trabalhar em temas como "Who Feels Love?", ou "Put Your Money..." do que aqui. Até porque ele sabia desde o início que estava aqui na presença de um winner.

O mais engraçado é que eu andei anos a fio a ouvir "It's A Crime" como se fosse um tema in its own right (era conhecido desde 2001) e mais tarde, quando finalmente saiu "Let There Be Love", o resultado final deixou-me com um amargo de boca.

"Little James" (4:29)
(Demo | unreleased)



Este é um snub óbvio. É o primeiro tema composto por Liam Gallagher e, segundo o próprio, escrita em apenas 3 minutos (e posso dizer que se nota). Como tal, sendo este um álbum a solo de Noel, não poderia aparecer em "The World That Waits Outside". Fica aqui a Demo por curiosidade.

3. Epílogo

Chega aqui ao fim aquela que foi provavelmente a análise mais profunda e detalhada (pelo menos em português) do álbum mais mal-amado dos Oasis e do que poderia ter sido o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher. Quero agradecer aos sites Oasis Demo Info e Stuart Epps onde eu fui "roubar" (à Noel) alguma informação preciosa que me permitiu fazer estes textos que me ocuparam - e salvaram - a vida nas últimas semanas

Fiquem então com um resumo do universo de "The World That Waits Outside", com os respectivos links para mais fácil audição e no fim, uma playlist para maior comodidade. E se forem possessivos como eu, ainda têm este serviço personalizado para download. Que maravilha, é a papinha toda feita.


Noel Gallagher

Side A
2. "Go Let It Out" (5:32)
3. "Full On" (4:18)
4. "Gas Panic!" (6:41)

Side B
6. "One Way Road" (4:05)
7. "Idler's Dream" (3:00)
10. "Roll It Over" (6:32)
11. "Solve My Mystery" (3:49)


Bonus Track (CD only)
11. "Teotihuacan" (7:05)
______________________________________


1st single: "Solve My Mystery"
7''
1. "Solve My Mystery" (3:49)
12''
1. "Solve My Mystery" (3:49)
3. "Teotihuacan" (7:05)


2nd single: "Go Let It Out"
7''
1. "Go Let It Out" (Radio Edit)  (4:30)
12''
1. "Go Let It Out" (5:32)


3rdsingle: "Gas Panic!"
7''
1. "Gas Panic!" (Radio Edit) (4:35)
2. "Carry Us All" (4:06)
12''
1. "Gas Panic!" (6:41)
2. "Carry Us All" (4:06)




E porque é sempre apropriado terminar com uma citação, fecho com um quote do Mestre, que valida tudo o que ficou aqui na última semana:
"Our demos are great, man, I’ve got to say. We ought to put out a double box-set of our demos. I think the first time you record anything is always the one for me, it’s always magical."
Noel Gallagher, XFM, 30 de Maio de 2005

Venha de lá então esse box set, Noel.

Caderno onde Noel escreveu as letras para "Morning Glory"

sábado, 1 de outubro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (V.b)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis

II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Where Did It All Go Wrong?" | O mundo que espera lá fora
V.a. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Lado A)
V.b. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Lado B)
V.c. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Singles & Snubs)

V.b. "Solve My Mystery" | O álbum perdido (Lado B)

Na segunda parte do capítulo final (calma que ainda há mais), continuamos a análise faixa-a-faixa de "The World That Waits Outside", desta feita o Lado B.

"One Way Road" (4:05)
(B-Side de "Who Feels Love?")



Vira-se o disco, pousa-se a agulha e ouvem-se passarinhos a cantar. É o início do Lado B de "The World That Waits Outside".
Vamos pôr as coisas desta forma: "One Way Road" é um dos melhores temas que Noel já escreveu. De sempre. Seria um dos óbvios pratos fortes do álbum, mas em vez disso, foi atirado para Lado B de "Who Feels Love?", num caso paradigmático em que o B-Side é, de muito muito longe, melhor que o A-Side.

A ausência de "One Way Road" em SotSoG só é explicável por ser demasiado pessoal e ancorada a tempos que Noel prefere esquecer. Quando um tema começa com "I wanna get high but I never could take the pain" (drogas) e segue com "as soon as they come, feelings they go" (separação) e "all alone on a way way road" (solidão), dá para ver o estado de espírito do compositor. Grande, grande, GRANDE tema. De puta madre. O lado B de "The World That Waits Outside" abre a mandar arrepios na espinha.

"Idler's Dream" (3:00)
(B-Side de "The Hindu Times")



Por falar em arrepios na espinha, olhem quem vem agora. Conhecem uma baladinha que se chama "Wonderwall"? Passou umas quantas vezes na rádio nos anos 90. Conhecem? Ok. Então ouçam bem o que vos digo: ao pé de "Idler's Dream", "Wonderwall" corava de vergonha. É uma das melhor baladas que Noel já escreveu, tem uma das suas letras mais reais e é cantada com um power arrepiante. E o mais absurdo é que o mundo nunca a ouviu. Que pena.

Apesar de ter sido gravado durante as sessões de "Standing On The Shoulder Of Giants", "Idler's Dream" só apareceria como Lado B de "The Hindu Times", primeiro single do álbum seguinte. É mais uma pequena batota da minha parte, uma vez que não há Demo disto, mas uma vez que o tema é basicamente só Noel e piano (é o único tema dos Oasis que não tem uma guitarra), acredito que esta seja a Demo original.

"And as I close my eyes and the sky turns red, I realize just what you AAAAAAAAAARE". Lindo, lindo, lindo. Dá-me mais disto, Noel, por favor.

"Let's All Make Believe" (3:30)
(Demo original de 1998 | unreleased)

De todos os temas que Noel quis "esconder" do seu período de glaciação, "Let's All Make Believe" é o seu segredo menos bem escondido. Muito por culpa da NME, que pôs o tema em 1º lugar (!!!) na lista das "500 melhores faixas perdidas" de sempre. Quite impressive. Nessa versão, incluída como faixa bónus na versão japonesa de SotSoG, quem canta é Liam (e bem!), um caso raro nos B-Sides desta altura. Mas se Noel deu o tema a Liam, isso que significa que ainda considerou "Let's All Make Believe" para o álbum. Pena ter ficado outra vez com os pés frios.

Se a versão de Liam é "a melhor faixa perdida de sempre", que dizer da versão de Noel? Cantamos sempre com mais afinco quando a música fala de nós e da nossa vida, não é Morrissey? Nesta Demo gravada em 1998, Noel mostra a powerhouse de que é feita a sua voz: "vamos todos fingir que gostamos uns dos outros", canta, num momento em que é vetado ao isolamento; "vamos todos fingir que no fim não envelhecemos", grita, quando confrontado com a inevitabilidade da velhice.

"Let's All Make Believe" é real e é  um dos melhores temas que Noel já escreveu. Mais um, o terceiro, em 3 temas do Lado B de "The World That Waits Outside".

"Just Getting Older" (3:21)
(Demo | B-Side de "The Hindu Times")



Por falar em envelhecer, segue-se "Just Getting Older". Noel continua a sua luta interna, reflectindo se isto tudo ainda vale a pena: "Staying in, I can't be bothered making conversation with the friends that I don't know. Am I cracking up, or just getting older?". Pensar que apenas um ano antes, Noel estava a escrever "stay young and invincible".

"Just Getting Older" seria lançado como B-Side de "The Hindu Times", mas remonta às sessões de SotSoG, situação semelhante a "Idler's Dream". A minha aposta é que os Oasis foram pressionados a lançar um single no início de 2002, antes do álbum "Heathen Chemistry", mas Noel só tinha "The Hindu Times" pronto para sair. Então foi "obrigado" a ir ao seu filão de temas demasiado-pessoais do final dos anos 90 e de lá sacou "Idler's Dream" e "Just Getting Older". Só porque teve mesmo que ser.

Esta versão está rotulada como Demo, mas é virtualmente idêntica à versão que seria lançada mais tarde como B-Side de "The Hindu Times" (a mistura é diferente e há ali umas guitarras suplementares), o que confirma a minha teoria que a maioria dos Lados B desta época vieram directamente do lote de Demos que Noel gravou em casa durante 1998 e 1999.

"Roll It Over" (6:32)
(Demo | unreleased)




Se achavam que este Lado B estava intenso, ainda não viram nada. O mote de "Roll It Over" é peremptório: "I can give a hundred million reasons to build a barricade". Falamos, obviamente, de depressão. O estado a que Noel chegou para escrever uma coisa destas. Não deve ter sido fácil.

"Roll It Over" é um murro no estômago. O mood é sombrio, a letra é niilista (totalmente anti-Noel) e as guitarras soam a Pink Floyd. De repente, parece que estamos num tema do "The Wall".

Mas a jóia da coroa é a voz de Noel. De todas as Demos que gravou nesta altura, é aqui que Noel dá a maior demonstração de power vocal. "Roll it over my soul, leave me heeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeere". It just goes on and on and on. Nem o Liam conseguia segurar a nota durante tanto tempo.
Nada contra Liam (quem ler esta sucessão de posts até pode achar que eu não gosto dela ou da voz dele; nada mais falso), mas é criminoso que Noel lhe tenha dado este tema. "Roll It Over" é dele, sobre ele e só devia ter sido cantada por ele.

Batemos no fundo. Mas antes que "The World That Waits Outside" possa ser confundido com um álbum dos Radiohead, levantamos-nos já a seguir.

"Solve My Mystery" (3:30)
(Demo | unreleased)


"It's not called 'Solve My Mystery'! It's fucking called 'Revolution Song!!!'"
Noel Gallagher, cansado de responder às perguntas 
sucessivas dos fãs sobre um tal de "Solve My Mystery"

Noel pode dizer as vezes que quiser que "Solve My Mystery" se chama "Revolution Song" e até pode, just to prove a point, decidir-se a lançar o tema com o nome "Revolution Song", 17 anos depois de o ter escrito. Não importa. Eu já conheço "Solve My Mystery" há 15 anos e sempre o conheci como "Solve My Mystery" e sabem porquê? Porque o Noel era demasiado teimoso para lançar o tema oficialmente. E se ele é teimoso, eu também sei ser. Por isso para mim vai ser sempre "Solve My Mystery".
"We did have one track which didn’t go on called ‘Revolution Song’.  It was demoed two years ago and it’s an out-an’-out gospel song, but not in the sense that ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ by U2 is a gospel song.  I think it’s a really, really good song.  We were going to have the full-on gospel choir singing it until fucking Blur put out ‘Tender’ and then we went, ‘fucking bastards!’.  That’ll have to wait for the next one.  They always nick our ideas!"
Noel Gallagher, Melody Maker, 23 February 2000

Noel diz que "Solve My Mystery" ficou de fora de SotSoG por causa de "Tender" dos Blur, mas eu tenho as minhas dúvidas. Por que raio demorou Noel tanto tempo para lançar um dos melhores temas que já escreveu, outra das pérolas (mais uma!) provenientes do filão dos late 90s? Não sei, mas posso imaginar. "Solve My Mystery" representa, como mais nenhum outro tema de Noel, as suas inseguranças mais escondidas. Todo o secretismo à sua volta leva a crer que seja uma visão por trás da cortina de durão que Noel quer passar para o exterior, quase uma invasão de privacidade. E acreditem, ele não gosta que invadam o seu espaço.
" I don't have nothing to prove and I don't think the band has either"
Liam Gallagher, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

Esta era certamente uma questão que ruminava no fundo da mente dos irmãos Gallagher. Talvez não para Liam, que acha que é o Elvis, mas com certeza para Noel. "Because I failed, they constantly ignore me", canta Noel na primeira estrofe. Quem é que gosta de estar continuamente a ser obrigado a provar o seu valor? Teria ele ainda algo para provar? Seria capaz de continuar a fazer música depois da quase-implosão da banda? "Solve My Mystery" foi a resposta de Noel a esta dúvida.

Quando recuperou o tema para "Chasing Yesterday" (2015), Noel incorreu no erro de domesticar a música, talvez achando que era demasiado cool para se voltar a despir. Aumentou-lhe o tempo e mudou a letra, pondo-se do lado de fora: "it won't be long until I solve MY mystery" passou a "it won't be long until I solve THAT mystery". Distanciamento completo, como se a música nem sequer fosse dele; como se os sentimentos, as inseguranças que originalmente deram origem à canção não fossem dele. Na prática, Noel abordou o tema como se fosse um cover dele próprio.

"Solve My Mystery" foi o tema que me fez pegar neste assunto e re-imaginar um álbum a solo de Noel Gallagher que nunca aconteceu. É o tema que fecha a história contada em "The World That Waits Outside" numa nota positiva. "I may have lost my mind but I believe that I rule my world". Noel está preparado para enfrentar o mundo lá fora outra vez.

Amanhã, a última parte com os B-Sides e os temas que ficaram de fora.