quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (IV)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis
II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Let's All Make Believe" | O mundo que espera lá fora
V. "Solve My Mystery" | O álbum perdido

IV. "Let's All Make Believe" | O mundo que espera lá fora



Em 2013, foram vendidas pela internet duas cassetes (saudades!) e um CD com as demos que Noel gravou a solo durante 1998 e 1999. Para além dos temas que acabariam por figurar no álbum "Standing On The Shoulder Of Giants" (em forma diferente e/ou com a voz do Liam), estas compilações continham ainda material que só mais tarde veria a luz do dia em B-Sides e noutros álbuns (caso de "Revolution Song") e ainda outras canções que continuam na obscuridade ("For One So Young" é um objecto de lenda).

Ao contrário das demos de álbuns anteriores também cantadas por Noel, em que ele se limita a cantar a letra que escreveu como guia à forma como Liam deve cantar (uma guide vocal), estas demos mostram Noel a dar tudo na voz. E mostram por isso que a sua voz também é uma powerhouse, o que é ainda mais perceptível nestes temas de maior carga pessoal e emocional.

  

Tivessem as coisas acontecido de outra forma, não tivesse Liam sabido que Noel andava a gravar às escondidas e, quem sabe, estas demos poderiam ter sido o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher. É esse exercício de suponhamos a que me proponho hoje. Para tal, vou utilizar as demos disponíveis na internet (no Youtube, mais especificamente), de forma a construir aquele que poderia ter sido a obra-prima dark de Noel.

Suponhamos então que em Fevereiro de 1999, Noel decide pegar no material que tinha gravado nos últimos meses e resolve entregar-me a tarefa de compilar aquele que seria o seu primeiro álbum a solo. Chamemos-lhe "The World That Waits Outside". Porquê? Três razões:
1. Porque soa a um título de um álbum dos Oasis (right?!);
2. Porque é uma linha de "Where Did It All Go Wrong?" e é cool pôr uma linha randómica de um tema do álbum, como título do álbum;
3. Porque é um álbum solitário e indoors, que pinta a imagem de alguém a olhar pela janela numa tarde de chuva;

"The World That Waits Outside" conta uma história, a de Noel no fim dos anos 90. Começa com drogas e sexo promíscuo em "Fuckin' In The Bushes" e "Go Let It Out" (especialmente nesta versão, mas mais sobre isso amanhã), leva o excesso ao limite em "Full On", mas rapidamente desce da euforia à miséria da ressaca em "Gas Panic!" e "Where Did It All Go Wrong?". Fim do Lado A.

O Lado B começa com os passarinhos a cantar em "One Way Road". É o choque com a realidade na manhã seguinte, fria e sóbria. O novo paradigma da sobriedade continua em "Idler's Dream", onde Noel inusitadamente fala no medo de voltar ao mundo real. "Let's All Make Believe" mostra-o ainda mais descaracterizado (e por isso mais fascinante), sem fé no mundo, ou em quem o rodeia. Noel continua a escavar mais fundo no que sente e em "Just Getting Older" pergunta-se se está a colapsar ou apenas a ficar mais velho. Finalmente decide confinar-se ao isolamento em "Roll It Over" e só pede que o deixem sozinho.

Noel vai ao fundo, mas levanta-se logo a seguir em "Solve My Mystery". O álbum termina numa nota positiva, com a promessa que não vai tardar muito até ele resolver o seu mistério. Tentaram mandá-lo abaixo, mas em breve ele vai voltar a dominar o mundo.

Entre temas como "One Way Road", "Gas Panic!" e "Solve My Mystery" ("Revolution Song") está um álbum confessional, o mais pessoal da sua carreira, o seu "Nebraska"; um álbum escrito durante a desintoxicação das drogas e o quase desmantelamento dos Oasis; um álbum onde Noel luta contra os seus demónios pessoais com a caneta. Só é pena que Noel tenha achado que era demasiado cool para um "Nebraska".

Sem mais, apresenta-se então, "The World That Waits Outside", o grande álbum perdido de Noel Gallagher, conjuntamente com os respetivos singles e B-Sides acompanhantes:

______________________________________

Noel Gallagher

Side A
1. "Fuckin' In The Bushes" (3:19)
2. "Go Let It Out" (5:32)
3. "Full On" (4:18)
4. "Gas Panic!" (6:41)
5. "Where Did It All Go Wrong?" (4:33)

Side B
6. "One Way Road" (4:05)
7. "Idler's Dream" (3:00)
8. "Let's All Make Believe" (3:30)
9. "Just Getting Older" (3:21)
10. "Roll It Over" (6:32)
11. "Solve My Mystery" (3:49)


Bonus Track (CD only)
11. "Teotihuacan" (7:05)
______________________________________

1st single: "Solve My Mystery"
7''
1. "Solve My Mystery" (3:49)
2. "Sunday Morning Call" (5:16)
12''
1. "Solve My Mystery" (3:49)
2. "Sunday Morning Call" (5:16)
3. "Teotihuacan" (7:05)


2nd single: "Go Let It Out"
7''
1. "Go Let It Out" (Radio Edit)  (4:30)
2. "Who Feels Love?" (5:56)
12''
1. "Go Let It Out" (5:32)
2. "Who Feels Love?" (5:56)
3. "(As Long As They've Got) Cigarettes In Hell" (4:18)


3rd single: "Gas Panic!"
7''
1. "Gas Panic!" (Radio Edit) (4:35)
2. "Carry Us All" (4:06)
12''
1. "Gas Panic!" (6:41)
2. "Carry Us All" (4:06)
3. "Where Did It All Go Wrong?" (Version #1) (4:18)
______________________________________

"Teotihuacan" é demasiado longo (e fora de contexto) para ser incluído no álbum, mas aparece como faixa bónus no formato CD e como Lado B do primeiro single, "Solve My Mystery". "Go Let it Out" e "Gas Panic!" são os singles seguintes.

A capa do álbum, reconhecê-la-ão do single "Sunday Morning Call". Ilustra na perfeição o mood do álbum.

Amanhã, no último capítulo, uma análise faixa a faixa de "The World That Waits Outside", com a escalpelização de cada versão que devia ter entrado neste álbum imaginário.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (III)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback
II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Let's All Make Believe" | O mundo que espera lá fora
V. "Solve My Mystery" | O álbum perdido

III. "One Way Road" | O álbum de um homem só


"I wanted to make a record that showed different sides to what I do."
Noel Gallagher, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

"Standing On The Shoulder Of Giants" é efectivamente um disco a solo de Noel Gallagher - o primeiro. Basta olhar para os créditos no livrete para se perceber que Noel fez virtualmente tudo e o input do resto da banda (qual banda?) cingiu-se à voz de Liam, eventualmente alguma bateria de Alan White (o álbum é dominado por drum loops) e pouco mais. Ah, o Liam também tocou pandeireta, pois. É o álbum de um homem só, em todos os sentidos da expressão. A única ajuda veio do engenheiro de som Stuart Epps e dos produtores Mark Coyle e Paul Stacey, que auxiliaram Noel nas faixas que gravou entre 1998 e 1999 em Supernova Heights (o seu estúdio pessoal, bem baptizado, btw) e em Wheeler End (estúdio que os Oasis usaram nos 00s).



"I had basically done the album twice before it even got to the band. I had written and recorded the songs on a little Walkman, and then I demoed the tracks on ADATs in my bedroom. And we ended up using a lot of stuff from the demos on the actual record because the demos were that good."
Noel Gallagher, guitarplayer.com, 2000





Como escrevi aqui,  SotSoG é o álbum sonicamente mais audaz dos Oasis. E de longe. Ao contrário das sessões de gravação de "Be Here Now" (que duraram duas semanas), Noel teve aqui um ano para trabalhar nos arranjos dos seus novos bebés e isso nota-se bem. Bebeu influências das colaborações com Chemical Brothers e Goldie e experimentou à Lagardère com a Electrónica. Se seria impensável ouvir um drum loop ou um sintetizador em "Definitely Maybe", eles aqui estão por toda a parte. "Teotihuacan" é o exemplo mais extremo desta experimentação, um tema tão fora do espectro dos Oasis (parece Massive Attack), que nem sequer para B-Side ficou. Tivesse Noel os tomates de um tal David Bowie (lembrem-se do que fez em "Low") e o público poderia ter conhecido melhor as diferentes facetas do que é capaz de fazer. Talento não lhe falta.

"There's too much at stake now, d'ya know what I mean?"
Noel, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK


A verdade é que provavelmente o público dos Oasis não estava preparado para uma mudança assim tão radical na sua sonoridade (os U2 tinham feito algo semelhante com "Pop" poucos anos antes e afundaram-se tragicamente) e creio que nem o próprio Noel estava. Como aconteceu noutras ocasiões ao longo da sua carreira, Noel teve cold feet (recordo a desistência do álbum colaborativo com os Amorphous Androgynous), "Teotihuacan" acabaria atirado bem para fora dos Oasis, incluído na banda sonora dos X-Files, imagine-se, como um tema de Noel Gallagher a solo.
"It still sounds like an Oasis record, but it sounds like a different kind of Oasis record."
Noel, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

Numa coisa Noel tem razão quando diz que os Oasis nunca deviam ter feito SotSoG. É que o seu lote de canções mais pessoal até à data deveria ter sido lançado como um álbum a solo de Noel Gallagher (à semelhança de "Teotihuacan"). E só não foi, porque alguém se chibou e Liam descobriu o que Noel andava a fazer.


"Noel got a call to say Liam had found out and was on his way over. Noel wasn't happy and said there would be trouble. Liam turned up and his first words were "looks like jimi hendrix bedroom" - he was great and they enjoyed themselves too."
Stuart Epps, engenheiro que acompanhou Noel nas gravações em Wheeler End

Liam apareceu no estúdio onde o irmão gravava secretamente e Noel já sabia que vinham lá problemas. Só que não. Quando Liam chegou a Wheeler End, já Noel tinha o álbum praticamente finalizado. O irmão mais novo estava a dar menos no álcool e, quiçá sentindo que a banda lhe estava a fugir das mãos, portou-se inusitadamente bem.


"With two members leaving, we got a lot closer"
Liam Gallagher sobre Noel, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

Como se Noel não tivesse problemas suficientes, Guigsy (baixista) e Bonehead (guitarrista rítmico) decidiram abandonar a banda. Mais do que nunca, os Oasis pareciam condenados e Noel foi obrigado a sair da toca para dar explicações ao mundo sobre o futuro da banda, numa conferência de imprensa épica que, recordo-me bem, foi acompanhada de perto pela Rádio Comercial, como se um assunto de Estado se tratasse.



Os irmãos Gallagher chamaram os jornalistas e apresentaram-se com o melhor corte de cabelo de sempre para dizer que os Oasis estavam vivos:


A decisão estava tomada, os Oasis eram para continuar e assim os irmãos puseram mãos à obra: Liam pôs a sua voz por cima (da maioria) dos temas que Noel já gravara, Gem Archer e Andy Bell foram contratados e a banda prosseguiu por mais 10 anos. "Standing On The Shoulder Of Giants" passava assim de um projecto a solo de Noel Gallagher a um álbum legítimo dos Oasis.

Segundo um artigo da NME de 27 de Setembro de 1999, outros títulos foram considerados para o álbum: "Where Did It All Go Wrong?" (demasiado negativista) e "Coming Through" (as drogas, mais uma vez). "Standing on the Shoulder Of Giants" surgiu de um quote de Isaac Newton, que Noel Gallagher viu numa moeda de 2 libras e escreveu, já com os copos, num maço de cigarros. Esqueceu-se do "S" em shoulders, mas o título ficou bem assim.


Talvez por não ter sido um álbum a solo e ter levado o carimbo dos Oasis, Noel se tivesse retraído na escolha dos temas a incluir em SotSoG. Só assim se explica a inclusão de "Put Your Money Where Your Mouth Is" (oi?), "I Can See A Liar" (um outtake de "Be Here Now"), "Who Feels Love?" (e foi single!) e "Sunday Morning Call" (o tema que Noel mais odeia do seu espólio e foi single também!). Para não falar no sofrível "Little James" que, enfim, foi um doce que Noel ofereceu ao irmão.

Noel nunca devia ter deixado os outros contribuírem com temas para a sua banda. Não antes de terem atingido o patamar de qualidade de "Don't Believe The Truth" onde, reconheça-se, em muitos casos passaram a ser melhores que os seus. Mas isso é porque Noel alegava que "não conseguia terminar as faixas", possivelmente já guardando reportório para a sua carreira a solo.



Num universo paralelo onde Noel Gallagher tivesse tido a coragem de lançar o álbum que já tinha gravado a solo, como seria então SotSoG? Amanhã.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (II)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback
II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Let's All Make Believe" | O mundo que espera lá fora
V. "Solve My Mystery" | O álbum perdido

II. "Gas Panic!" | O período de glaciação



Só há uma coisa que o mundo gosta mais que a ascensão de uma estrela — a sua queda. Qual estrela cadente, Noel foi atirado para o esquecimento das últimas páginas dos tablóides no fim dos anos 90. Dos anos hedonísticos da Britpop, sobraram os problemas com a droga e a bebida e as tensões na banda e no casamento. Ao mesmo tempo, Noel teve que lidar com um divórcio, com a saída de dois membros fundadores da banda (Guigsy e Bonehead), com a sua própria saída das drogas e claro, com a sempre tempestuosa relação com o irmão mais novo. Noel refugiou-se na música e ali despejou os seus tormentos.


Noel Gallagher teve entre 1998 e 2000 o seu período de glaciação, em analogia ao período equivalente de Neil Young entre 1973 e 1975. Curiosamente, à semelhança de Neil, Noel também não gosta deste período decadente, presumo que devido às memórias traumáticas a que está associado e à dor de lidar com o mundo sóbrio ("I wanna get high but I never could take the pain") depois de anos de festa rija.

No espaço de apenas um ano, a escrita de Noel passou de "stay young and invincible", para "I'm just getting older"de "you know it's gonna be okay", para "where did it all go wrong?"; de "it's getting better, man!", para "I could give a hundred million reasons to build a barricade"; de "all my people right here, right now" para "all alone in a one way road"; os exemplos são inúmeros.

A mudança radical no estado de espírito de Noel num par de meses apenas é sintomática e não se vê só na lírica. Basta olhar para a imagery da banda. De uma tarde soalheira britânica na capa de "Be Here Now", passamos para uma skyline fria e cinzenta em NY. Nos vídeos, passamos das cores beatlescas de "All Around The World", para o deserto em "Who Feels Love" e a chuva em "Go Let It Out". Os Oasis mergulharam na escuridão.



"We should have never made Standing on the Shoulder of Giants, I’d come to the end. At the time, I had no reason or desire to make music. I had no drive. I had no inspiration and couldn’t find inspiration anywhere."
Noel Gallagher, grantland.com

My ass. É frequente ouvir estas tretas do Noel, que tudo o que escreveu por esta altura era merda. Pois é precisamente ao contrário. O material escrito entre 1998 e 1999 representa "apenas" o mais profundo, mais sincero e mais REAL lote de canções do seu espólioFoi aqui que Noel deitou tudo cá para fora. Não é por acaso que acabaria por servir de filão para muitos anos de repescagens para os seus álbuns ("Let There Be Love", "Little By Little" e "Force Of Nature", para além de inúmeros lados B, remontam a esta altura).


Para além dos temas "glaciares" sobre drogas e isolamento, há aqui um segundo lote de canções mais bem dispostas, escritas em dias em que, presumo, Noel se sentia melhor; talvez depois de sair à rua, talvez depois de assistir ao filme "Message To Love" sobre o festival Isle Of Wight, o que lhe terá dado uma outra visão mais madura sobre o seu próprio consumo de drogas (Noel usaria uma série de excertos de testemunhos do filme em "Fuckin' In The Bushes"). Infelizmente foram estes temas "mais seguros", mais "à Oasis", que apareceram maioritariamente no disco.

É um contra-senso, mas o critério de Noel na escolha de material para este álbum parece ter sido definido pela selecção dos temas que mais o distanciavam do seu próprio período negro. Só assim se explica que alguns dos melhores temas que já escreveu fossem atirados para Lados B ("One Way Road", "Let's All Make Believe) e outros nem sequer vissem a luz do dia ("Solve My Mystery", "It's A Crime"). Noel repudia frequentemente "Be Here Now" com o pretexto que "tempos felizes não fazem bons álbuns", mas depois nem quer ouvir falar dos tempos de SotSoG. Decide-te, Noel.

Nenhum período mostra uma visão caleidoscópica do interior da mente de Noel como o seu período de glaciação. A única lástima é que, enquanto o período análogo de Neil produziu 3 álbuns ("Time Fades Away", "On The Beach" e "Tonight's The Night"), Noel materializou apenas um álbum - "Standing On The Shoulder Of Giants". E que álbum pobre para representar esta época. Não foi por falta de canções que Noel não foi mais profícuo, foi só falta de coragem em lançá-las ao mundo.

Amanhã, como este lote de canções pessoais se transformou num álbum dos Oasis.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"The World That Waits Outside" | O álbum perdido de Noel Gallagher (I)

"The World That Waits Outside"
O álbum perdido de Noel Gallagher

Como o primeiro álbum a solo de Noel Gallagher se transformou no álbum mais mal-amado dos Oasis

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback
II. "Gas Panic!" | O período de glaciação
III. "One Way Road" | O álbum de um homem só
IV. "Let's All Make Believe" | O mundo que espera lá fora
V. "Solve My Mystery" | O álbum perdido

I. "Fuckin' In The Bushes" | Cocaína e feedback



Se perguntarem ao Noel Gallagher qual foi o seu apogeu enquanto compositor, de certeza que ele vos aponta o período entre 1993 e 1995, anos em que escreveu e gravou as canções que viriam a figurar nos álbuns "Definitely Maybe" e "(What's the Story) Morning Glory?". É difícil contra-argumentar com isto. Mas se a seguir lhe questionarem sobre o seu pior período, é provável que Noel indique a era do álbum "Standing On The Shoulder Of Giants", lançado no ano 2000. E aí meus amigos, o Noel está out of his fucking mind.


Vou ser directo: "Standing On The Shoulder Of Giants" (SotSoG) é não só o álbum mais underrated dos Oasis, como também é o trabalho sonicamente mais audaz da banda de Manchester, a milhas de tudo o que fizeram antes. O álbum tem dois problemas que atormentam a sua reputação: é muito dark e portanto completamente diferente do que o público estava à espera (especialmente depois do hedonismo de "Be Here Now"); e porque, de facto, está pejado de um punhado de temas do mais desinspirado que Noel já escreveu ("Put Your Money Where Your Mouth Is"? Really?).

Só pondo as mãos numa daquelas compilações menos legais de demos das sessões de 1998 e 1999 é que percebemos o que se perdeu em SotSoG. E só conhecendo a História e juntando as peças do puzzle, conseguimos ter a noção que poderíamos estar na presença da obra-prima dark de Noel Gallagher; uma espécie de Definitely Maybe negro; um Morning Glory da depressão; o grande álbum perdido de Noel Gallagher. Mas lá chegaremos. Antes disso, um pouco de História.
"Once you've written the greatest Rock N' Roll album of the 90s, what do you do?"
Noel Gallagher, "Standing On The Shoulder Of Giants" EPK

Em primeiro lugar, para perceber a (óbvia) mudança de sonoridade de "Be Here Now" para SotSoG, é preciso contextualizar a miríade de tempestades que Noel Gallagher viveu no fecho da década de 90. Depois de ocupar a cadeira dos deuses em Knebworth, em Agosto de 1996, o melhor que Noel poderia ter feito seria gozar umas merecidas férias para limpar a cabeça. Mas Noel e a Creation (a editora dos Oasis) queriam capitalizar o momentum da banda e como tal afogaram-se em cocaína para conseguirem finalizar o álbum "Be Here Now", lançado um ano mais tarde, em Agosto de 1997.

O álbum denotava clara falta de quality control: metade brilhante, metade decepcionante, mas todo ele BOOOMfull-blown, in your face e outros anglicanismos que tais. Uma horda de layers de feedback desnecessário que nuns casos tentavam disfarçar canções insossas, mas noutros apenas asfixiavam temas ao melhor nível de Noel ("Don't Go Away" à cabeça).

O mundo recebeu "Be Here Now" em euforia, mas rapidamente se apercebeu que não era assim tão bom como ansiava (e precisava). Entretanto, Spices, Backstreets, Britneys e Robbies continuavam a sua ascensão até ao topo e rapidamente o mundo se esqueceu dos Oasis, tão depressa como tinha sido sacudido com a sua chegada em 1994/1995. De repente, todos duvidavam das capacidades de Noel, o mesmo homem que durante dois anos escrevera hits atrás de hits que haviam povoado as tabelas britânicas. Noel via-se obrigado a provar o seu valor outra vez.

Amanhã, a História dos anos negros de Noel Gallagher ou, como eu lhe gosto de chamar, o seu período de glaciação.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

David Gilmour - "Smile"

"Leaving is a better way to find my way home to your smile"


Adeus, David Gilmour (outra vez)

Esta é mesmo a última vez, agora é que é, a sério

Estive no primeiro (Pula), no segundo (Verona) e no terceiro (Firenze). Depois fui ao primeiro americano (Hollywood #1) e ao segundo americano (Hollywood #2). Depois presenciei o mais importante de todos (Pompeii) na primeira fila e prometi que seria o último. Menti.



Sou de impulsos, é certo. Mas isto é mais do que só um impulso. Sabem quando se vêem subjugados pelo peso da vida e sentem que têm que fazer alguma coisa? Pois, nessas situações, eu tenho duas coisas que nunca falham: Londres e David Gilmour. Quando as duas se juntam e cai no colo a oportunidade de ficar num lugar de luxo, numa sala lendária, numa ocasião irrepetível (the very last date of the tour), numa altura em que é exactamente disto que eu preciso, como recusar?

Chocada com a notícia, a minha mãe já me perguntou por que eu não me caso com o David Gilmour. Eu disse-lhe que apesar do amor não escolher idades, até ele é demasiado velhinho para mim. Bem sei que lhe disse adeus em Pompeia, mas depois de ter estado em todos os concertos importantes da Rattle That Lock Tour, não podia faltar ao último dos últimos. É um fecho de ciclo perfeito.

Agora sim, pela última vez, adeus David Gilmour. E obrigado por tudo. I love you.

P.S.: Para celebrar este momento, fiquem com "Smile" que, qual coincidência, acabei de encontrar, imaginem, numa mixtape velhinha.

P.P.S.: A minha mãe já está descansada. Depois de dizer que ia a Londres, disse-lhe que a escolha era isto, ou apanhar um avião para Denver (🎶é um dinossauro🎶) e ver os Tears For Fears em Red Rocks. Ficou logo mais aliviada.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Eurythmics - "I Saved The World Today"

"There's a hurting thing inside, I've got everything to hide"


Restaurar cópia de segurança?

A música como máquina do tempo

Sabem quando instalam um sistema operativo novo no telemóvel, mas depois de uns tempos de utilização, vêem que nada funciona como queriam e após muito batalhar, chegam à conclusão que a única maneira de corrigir a merda que fizeram é restaurar as configurações gravadas na última cópia de segurança? Sabem? É o mais próximo da máquina do tempo que o homem já inventou. Desse a vida para restaurar a última cópia de segurança e seria tudo tão mais fácil. Máquinas do tempo não existem na Fnac e provavelmente não viverei até ver essa secção ao lado dos televisores a cores. Mas tenho a música.

A única forma que tenho de fugir ao novo sistema operativo que incautamente instalei na minha cabeça, é ouvindo uma música que teleporta o meu mindset para um lugar seguro e soalheiro e assim restaurar as definições que estão gravadas na melodia do tema. Ancorar ali em segurança, nem que seja só por três minutos de sol.

Ao ouvir a música em repeat, uma, duas, três, dez vezes, a app do subconsciente irá activar o sistema de protecção e com vários pop-ups perguntar ao consciente "Tem a certeza que pretende voltar às definições gravadas quando ouviu esta música?". Como se houvesse dúvidas. O problema são os impulsos não civilizados do inconsciente - esse filho da puta - que se manifesta inexoravelmente até foder a vida a um gajo, deitá-lo abaixo com sentimentos e memórias de momentos perigosamente felizes, quais doses de heroína, instantâneas e fugazes, que fogem para dar lugar à miséria do consciente.

A minha cópia de segurança está gravada algures em 1999, altura em que passava na Rádio Comercial este "I Saved The World Today" dos Eurythmics. Nunca fui fã da banda (tirando o "Sweet Dreams (Are Made Of This)", que é uma malha do cacete), mas este tema, oh it takes me back, back to that safe place.
Tinha escrito mais um parágrafo sobre o lugar onde está a cópia de segurança e por que está ali guardada, mas temo que este post já esteja suficientemente depressivo. Descansem, os meus pulsos estão intactos e estou provavelmente a ouvir em repeat a playlist da Rádio Comercial de 1999.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crowded House - "Weather With You"

"You can fight the sleep, but not the dream"
Estava eu a vasculhar o meu Spotify, quando dou de caras com uma das minhas bandas preferidas, a quem eu tenho feito vista grossa nos últimos tempos — os Crowded House. Outrora os Crowded House serviam para me aquecer o coração, qual cobertor quentinho que se puxa quando acordamos a tremer de frio naquelas noites em que parece que vai estar calor, só que depois não.

Numa altura em que a banda de Neil Finn se prepara para regressar aos concertos com o pretexto de celebrar as reissues de toda a sua discografia, talvez seja a hora de voltar a pegar no meu cobertor neozelandês preferido.

Lembrei-me então de uma história cutchi-cutchi de um grande amigo com o hit "Weather With You". Há uns anos, ele tinha uma "love interest" americana de nome Heather; a páginas tantas, a Heather —apaixonada — enviou-lhe por correio uma foto em formato postal dos dois juntos num barco. Romântico? Esperem. Virando o postal, no verso podia ler-se:

"Everywhere you go, always take the Heather with you"



Awwwww.
E eu, que não conhecia, nem nunca cheguei a conhecer a Heather, fiquei fã dela imediatamente.

If only he did.